As cidades do futuro
 
 
02 de janeiro de 2006
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Chongqing
Espigões surgem por todos os lados em Chongqing. Devido ao clima, ela está quase sempre coberta por uma neblina.
Xangai e Pequim já são conhecidas como os símbolos do milagre econômico chinês. Mas é na região oeste que cresce com dinamismo o maior município do mundo: Chongqing, 32 milhões de habitantes.
 
No país em plena mutação, uma nova “Brasília” está sendo construída nos arredores de Xangai. Lingang New City deve ter até lago artificial.
 

Em Chongqing é preciso ter pernas. Ao desembarcar de um navio que aporta nessa cidade localizada no sudoeste do China, no entroncamento entre os rios Yangtsé e Jialing, o turista tem de subir centenas de degraus até por os pés no centro. Os menos esportivos preferem pagar 10 yuan (pouco mais de um dólar) aos carregadores, conhecidos em todo o país pela capacidade de levar nas duas extremidades de um pedaço de bambu quantidades impressionantes de carga. Não é incomum ver alguns equilibrando nos ombros estoques inteiros para entregar nos comércios locais.

Como se tivessem sido banidas por decreto, não se vêem bicicletas nas ruas. O relevo montanhoso de Chongqing e o desenho caótico das suas ruas não permite a circulação de veículos em alguns trechos. Porém a primeira impressão camponesa da cidade engana: com uma população total de 31 milhões de habitantes, espalhados nos seus 40 distritos, ela é considerada o maior município do mundo. Seis milhões de pessoas vivem na área urbana.

Os sinais do crescimento econômico já podem ser visto nas margens do rios através das centenas de arranha-céus. Juntos, eles poderiam até lembrar uma espécie de Manhattan fluvial. Mas a imagem engana: os prédios foram construídos há pouco tempo e ainda estão parcialmente vazios. O clima úmido e quente da cidade combina com o momento: tudo é efêmero.

Apenas em 1997 Chongqing se tornou independente da província de Sichuan, ganhando o status de município central, um privilégio gozado apenas por Pequim, Xangai e Tianjin. Seu PIB de 266,5 bilhões de yuans (2004) ainda é pequeno se comparado ao das cidades-irmãs na costa leste da China, porém seus habitantes se consideram parte de uma vanguarda do milagre econômico chinês.

Bombardeio

A primeira impressão de Chongqing é que a ela passou por um programa de beleza. Mesmo em comparação com Xangai, a cidade se mostra limpa e organizada. A explicação está o encontro internacional realizado entre 11 e 14 de outubro, que reuniu prefeitos da região Ásia-Pacífico. Graças ao “2005 Asia Pacific Cities Summit”, as fachadas de uma centena de prédios foram polidas, toaletes limpos, detritos removidos e também barracas ou as habitações provisórias dos camponeses que erram pelas suas ruas à procura de trabalho. Até os motoristas de taxi aprenderam noções de inglês que eles testam, muitas vezes sem sucesso, com os poucos turistas que aparecem. “Sir, thank you, where you go?”.

O esforço mostra que Chongqing quer recuperar o brilho que já teve no passado. Na primeira metade do século XX, ela esteve temporariamente no centro do “Império do Meio” quando o governo, sob a liderança do general Chiang Kai-Sek, se instalou por lá em 1938 para fugir do invasor japonês. Durante a Segunda Guerra Mundial a cidade foi bombardeada várias vezes. Até hoje os “bunkers” subterrâneos espalhados no centro são testemunhos dessa época sangrenta. Após a revolução, Mao Tsé-tung integrou Chongqing na província de Sichuan. Ela caiu então num ostracismo que iria durar quarenta anos.

Com a abertura econômica da China no início dos anos 90, o desenvolvimento também chegou nessa região, mesmo com um certo atraso. Chongqing aproveita não apenas da sua história, mas também da localização geográfica como entroncamento entre o leste e o oeste da China. De fato abriga o maior porto do Yangtsé, a mais importante via de transporte hidroviário do país.

 
Hung Qifan
Huang Qifan, vice-prefeito de Chongqing, solicitou aos jornalistas que falem mais de Chongqing no exterior.

Milagre econômico

O governo central em Pequim decidiu que também o interior do país precisa participar do milagre do desenvolvimento. Desde então, Chongqing vive um clima de ebulição sem precedentes. Com a transferência de milhares de dólares foram construídos oito pontes suspensas, o mesmo número de linhas férreas, centenas de quilômetros de auto-estrada, sistema de esgoto e um novo aeroporto.

O sinal dado pelas lideranças não passou despercebido. O setor privado passou então a investir pesado no mercado imobiliário. Por todos os lados já se vêem gigantescos prédios, centros habitacionais e torres comerciais. O centro comercial de Chongqing, que lembra mais o de grande cidade americana, já se vêem todas as inúmeros shopping-centers e cartazes das marcas mais conhecidas no mundo.

Para Huang Qifan, vice-prefeito da cidade, o caminho já está traçado. O burocrata é um especialista em grandes metrópoles desde que trabalhou na comissão econômica de Xangai. Agora sua missão é colocar essa capital da região oeste nos eixos do progresso. Muitos observadores o consideram um candidato para outras tarefas de maior peso em Pequim, lembrando que o atual chefe de governo chinês, Hu Jintao, que também já teve cargos em províncias como Guizhou e Tibet.

- Se nós conseguirmos manter esse ritmo, em breve estaremos nos mesmos patamares de Xangai – afirma Huang, que recebeu o grupo da journalists-network na melhor tradição chinesa, ou seja, uma grande sala, onde os jornalistas sentam em confortáveis poltronas e são servidos de chá verde. Na sala aquecida, mais de trinta funcionários acompanharam em silêncio as perguntas feitas pelos estrangeiros. O vice-prefeito as respondeu em longos discursos, floreados como em versos.

- Em 2004, o PIB de Chongqing cresceu 12%. A parte da iniciativa privada nesse crescimento foi de 50%, um número considerável para padrões chineses – conclui.

Na sua opinião, Chongqing não tem problemas de energia. Hidrelétricas como o gigantesco projeto de Três Gargantas (ver reportagem “Apagou a luz na fábrica do mundo”) e reservas de gás e carvão na região garantem o fornecimento. Apagões, como os que ocorrem com freqüência nas regiões costeiras, não ocorrem por lá, garante o funcionário.

 
Carregadores em Chongqing
Mão-de-obra abundante: um dos milhares de camponeses que vivem de carregar mercadorias em Chongqing.
 
Multinacionais chegando

A hidrelétrica de Três Gargantas é a espinha dorsal da aspiração de Chongqing de ascender o topo das capitais. Desde que suas comportas foram fechadas em junho de 2003, as águas do rio subiram a uma altura suficiente para tornar tranqüila a navegabilidade do Yangtsé.

A idéia do governo é de transformar Chongqing num vasto centro manufatureiro, que irá suprir a China e o mundo de mercadorias utilizando o rio como via de escoamento.

Graças a sua forte indústria automobilística local, Chongqing poderá se transformar na próxima Detroit. Com os salários duas vezes menores do que os pagos nas zonas costeiras e energia em abundância, os argumentos são fortes.

Ao mesmo tempo, ela é ajudada pela liderança em Pequim, que praticamente “forçou” a ida da Ford para Chongqing. A empresa americana agora produz 150 mil veículos por ano na sua fábrica localizada ao norte da cidade. Nesse meio tempo outras multinacionais também se instalaram por lá como Honda, British Petroleum (BP), Pepsi Cola ou a Philips.

A grande vantagem de Chongqing está na sua gigantesca reserva de mão-de-obra. Todos os dias chineses oriundos das zonas rurais saltam na estação de trem ou de ônibus da cidade à procura de trabalho. Em grande parte eles vão para os canteiros de obras dos centros residenciais, que estão sendo construídos por todos os lados. Os cartazes das companhias imobiliárias estão espalhados nas ruas e mostram os nomes dos novos condomínios como Beverly Hills ou Palm Springs resort.

 
Chongqing
Grande parte do bairro de Shaping-Ba já foi destruído para dar espaço a novos condomínios.

Especulação imobiliária

O vice-prefeito Huang Qifan é humilde quando fala dos objetivos da cidade. Ele também aproveita a ocasião para dar uma pontada nos jornalistas europeus:

- Não queremos fazer como na Europa, de ajudar algumas pessoas da população a se tornarem mais ricas. Nosso principal objetivo é de colocar nossa população na classe média.

Porém muitos cidadãos, como o guia turístico da journalists-network, não escondem um certo mal-estar. Com tantos novos prédios brotando do chão como cogumelos, ele se pergunta quem irá ocupá-los. Por enquanto o número de empresas estrangeiras que vieram para o município ainda é muito reduzido. Mesmo com o número impressionante de habitantes, poucos conhecem Chongqing no ocidente e as multinacionais ainda preferem ficar nas regiões costeiras.

Os chineses se consideraram bem pagos quando têm o salário médio de 1.200 yuan (U$S 148). Para eles, muitos dos novos apartamentos, cujo metro quadrado pode custar de 500 yuan (US$ 62) nos conjuntos habitacionais comuns, até 8 mil (US$ 991) nos condomínios de luxo, ainda são inacessíveis.

Porém o “boom” imobiliário não conhece fim. Ele não perdoa bairros históricos ou populares. Os engenheiros chegam com seus tratores e deitam tudo por terra. Procedimentos burocráticos de longa duração como os alvarás do ocidentes não existem na China. Chongqing é o paraíso dos urbanistas e arquitetos.

Um deles é Manfred Siry, professor alemão que participa atualmente de um programa de intercâmbio. Por três anos ele trabalhou no instituto de urbanística da Universidade de Chongqing e agora deve retorna à Colônia.

- Na China é muito mais fácil de construir algo do que na Europa, onde os procedimentos são demorados e qualquer tem direito de veto através da justiça caso seus interesses estejam sendo contrariados. Porém o outro lado da medalha é que centenas de famílias podem ser desalojadas arbitrariamente e prédios históricos desaparecem num piscar de olhos.

Para mostrar como funciona, o arquiteto mostra Shaping-Ba, um bairro popular não muito distante do centro de Chongqing. A metade dele já desapareceu embaixo das picaretas. A única coisa que se vê são escombros no lugar onde, em breve, devem ser construído mais outro condomínio.

- Em menos de cinco anos a maior parte de Chongqing estará completamente renovada. Nenhum prédio construído antes de 1980 estará de pé – prevê com uma certa melancolia Siry.

Uma velha moradora, que vive num pequeno conjugado há dez anos, explica que sua casa também está marcada para ser demolida. O sinal é uma marca circular vermelha na parede externa. Porém a confirmação ainda não veio dos investidores. Seu sonho é mudar-se para um dos apartamentos construídos ao lado, como já ocorreu com seus vizinho. No bairro antigo a maioria das casas não tem banheiro ou água corrente. Tudo funciona de forma coletiva, como era no passado.

O único problema para essa mulher, já beirando os setenta anos, é saber como irá pagar as prestações apenas com o dinheiro da indenização. Seu único filho está desempregado e ela não tem bens. A única resposta é acreditar nas boas intenções do governo.

 
Lingang New City
Maqueta da "Lingang New City" mostra o lago artificial de 2,5 quilômetros quadrados.

A nova “Brasília”

Se grandes metrópoles chinesas estão sendo “viradas” ao avesso” para acompanhar o ritmo alucinante de crescimento do país, espantoso é quando uma metrópole é criada do zero.

Seu nome é “Lingang New City” e já está sendo construída nos arredores de Xangai num terreno de 74 quilômetros quadrados.
Segundo o calendário oficial, ela deve ficar pronta em 2020, quando 800 mil habitantes vai sentir o gosto de viver como no primeiro mundo.

Centenas de operários já trabalham no canteiro de obras que mais lembra um formigueiro humano. No momento só se vêem algumas poucas construções como o pavilhão de exposições.

Os planejadores dessa nova cidade-satélite de Xangai são os arquitetos alemães da empresa GMP, que ganharam o concurso internacional do governo chinês para realizar o projeto. A inspiração é diversa, mas incluiu também a capital brasileira.

- Nos inspiramos em Alexandria, pela sua proximidade com a água, e em Hamburgo pela mesma razão. Mas Brasília foi também uma grande referência, já que Lingang New City é a primeira cidade planejada depois da construção dela - conta Annika Schröder, uma jovem arquiteta que ainda nunca visitou o Brasil.

Se tudo der certo, os habitantes de Lingang poderão passear ou se banhar na faixa de areia de 8 quilômetros que irá circular um lago artificial de 2,5 quilômetros quadrados no centro da cidade. Este será construído através do aterramento de parte do oceano que já banha o litoral. Infelizmente a qualidade da sua água ainda não permite o banho.

- Isso é devido aos despejos de esgoto na região e o uso de adubos pelos agricultores locais. Mas nos próximos anos ela será tratada – promete Schröder.

Na maqueta exibida pela arquiteta, descobre-se que Lingang será dividida em três zonas circulares. Os prédios serão de baixo gabarito e estão previstas áreas de comércio, bancos e residenciais. A cidade também terá zonas exclusivas para pedestres, uma exceção na China. Bondes irão assegurar o fluxo tranqüilo do transporte, contrastando com o caos diário de Xangai.

Os novos habitantes de Lingang New City serão pessoas da classe média que ainda vivem na metrópole. Xangai já sofre atualmente com seus 13 milhões de habitantes, mas que deve ter em 2020 pouco mais de 16 milhões. Essa nova classe média chinesa já começa a procurar alternativas para a vida caótica na grande cidade e seus intermináveis congestionamentos.

- Para eles Lingang oferece exclusividade e um estilo de vida como na Europa, com mais áreas verdes, espaço, funcionalidade e segurança - define a jovem arquiteta.

Em 2006 a primeira fase da construção da nova cidade deverá está concluída. Cerca de 80 mil pessoas irão se mudar para os prédios que serão construídos em tempo recorde. Já hoje vários grupos de Xangai visitam o canteiro de obras para admirar as plantas dos apartamentos. A segunda e a terceira zona estarão completas em 2020.

Alexander Thoele, Chongqing e Xangai

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Audio Entrevista com Manfred Siry (real - 2,34 MB)
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O projeto de "Lingang New City"
Canteiro de obras de Lingang
 
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