Bomba social prestes a explodir
 
 
02 de janeiro de 2006
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pobreza
Um dos milhares de indigentes que povoam as ruas de Xangai.
Descartados do progresso fabuloso, tiranizados pela corrupção, desapropriados das suas terras ou abandonados à própria sorte como mão-de-obra barata nas fábricas e construções do país.
 
A população rural chinesa se revolta cada vez mais, porém sem a coordenação capaz de fazer cair o regime.
 

A tragédia ocorreu na noite de 6 de dezembro de 2005 em Dongzhou, um povoado de três mil habitantes situado no coração da província de Guangdong, no sul da China.

A versão publicada pela agência oficial de notícias Xinhua conta que cerca de 170 camponeses, armados de facas, porretes, bastões de dinamites e coquetéis Molotov haviam ocupado uma central elétrica. Depois que os reforços policiais chegaram, os manifestantes começaram a atirar nos agentes que, ao revidar, mataram três pessoas e feriram outras três.

Depois do incidente, o local foi cercado por mil policiais e todas as vias de acesso foram fechadas. Durante vários dias a mídia oficial silenciou. Quando as notícias começaram a vazar através de outros canais, já se falava entre vinte a quarenta mortos. Por telefone, habitantes contaram a jornalistas que vários cadáveres ainda estavam jogados no chão horas depois do confronto e que muitos jovens haviam fugido para não serem presos.

O que realmente ocorreu em Dongzhou talvez nunca seja esclarecido completamente, porém essa foi a primeira vez que forças policiais disparam contra a multidão depois do massacre de estudantes na Praça da Paz Celestial (Tiananmen) em 1989, o que deu lugar às comparações na imprensa estrangeira e conseqüentes críticas de Pequim.

Simbólico para o incidente é o fato de Dongzhou estar localizado na zona especial de Shanwei. Essa e outras áreas de grande atividade industrial na província de Guangdong - graças aos grandes investimentos de multinacionais e de empresas chinesas de Cantão e Hong Kong, que não estão muito distantes - chegam a assegurar 40% das exportações do país.

Também simbólica é a insatisfação dos camponeses de Dongzhou. Eles protestaram pela construção de uma usina térmica para geração de eletricidade nas suas terras e pelas baixas indenizações, um problema que tem se tornado cada vez mais freqüente na China. Pior é quando o dinheiro desaparece nos moinhos da corrupção crescente nas províncias.

 
Dongzhou
Membros da família de Wei Jin, 31 anos, um dos manifestantes mortos em Dongzhou pela polícia durante os protestos de 6 de dezembro (foto: AP Photo/Ng Han Guan)

Prisões e corrupção

Na China não existe direito de propriedade da terra, mas sim o direito de uso de no máximo 70 anos. As famílias que são desapropriadas por interesses público recebem, em regra, uma nova residência e entre quatro e seis mil euros por cabeça - muito dinheiro para um camponês na China. Porém a insatisfação é grande: - "O que me ajuda o dinheiro e um apartamento num arranha-céu, se eu não tenho mais trabalho", afirma uma mulher, que perdeu sua fazenda nas margens do rio Yangtsé, depois que a área foi inundada para a formação do lago da hidrelétrica de Três Gargantas. Na mídia fala-se de 60 milhões de pessoas que perderam suas terras nos últimos dez anos do milagre econômico chinês.

Porém muitos nem chegam a receber a indenização. A corrupção é um problema cada vez mais comum na China. Há poucos os jornais anunciaram a condenação a morte de um alto funcionário do distrito de Wushan, um dos inundados pela represa, que teria desviado o equivalente a 512 mil dólares dos fundos de compensação para os camponeses.

Também conhecido mundialmente ficou sendo o caso de Huang Jingao, secretário do Partido Comunista num distrito da província de Fujian, condenado à pena de prisão perpétua em novembro de 2005. O governo teria o acusado de receber o equivalente a 600 mil dólares de suborno.

Porém no seu caso, alguns o consideram um “Robin Hood” chinês. Como conta o jornal de Hong Kong “South China Morning Post”, Huang teria pago pela audácia de ter criticado abertamente a corrupção ao publicar em agosto uma carta aberta no site “Diário do Povo Online”, onde ele reclamava de “não ter tido sucesso de obter apoio dos responsáveis políticos” e descrevia as “regras não escritas graças as quais os caciques do partido se protegem mutuamente para camuflar seus enriquecimentos ilegais”. Em particular ele denunciava os pactos de corrupção que ligam burocratas do regime e promotores imobiliários no seu distrito de Liangjiang, se traduzindo nas expropriações arbitrárias cujas maiores vítimas são as populações camponesas. Em entrevista ao jornal de Hongkong, Huang havia declarado apenas querer “que a voz de um secretário do partido mergulhado numa situação desesperadora seja escutada, pois não se sabe o que se passa nos mais altos níveis do poder”.

 
Wuhan
Não muito distante do recém-construído aeroporto de Wuhan uma favela chinesa.
 
74 mil protestos

Já hoje cerca de 150 milhões de pessoas, na sua grande parte trabalhadores rurais, vivem perambulando de uma metrópole a outra à procura de trabalho. Os chamados “mingong” são exilados no seu próprio país. Sem possibilidade de se estabelecer legalmente – a China ainda aplica um sistema de controle no deslocamento migratório que diferencia cidadãos com certificado de residência, o famoso “hukou”, dos que não têm o papel – essa massa humana é alijada do sistema social das cidades como escola, saúde pública, seguro-desemprego, e não tem praticamente direitos. Segundo os dados da direção de migrantes da Unesco em Pequim, eles correspondem a 79,8% dos empregados na construção civil, 68,2% dos empregos na produção de eletrônicos e 58% na gastronomia. Essa é a reserva infindável de mão-de-obra barata que movimenta o milagre econômico chinês.

As explosões sociais são freqüentes. Elas ocorrem nas mais variadas situações como quando migrantes são expulsos dos acampamentos improvisados, quando salários não são pagos ou acidentes como os que ocorrem nas minas clandestinas de carvão. No início do ano o próprio primeiro-ministro chinês Wen Jiabao alertou para o perigo de instabilidade social. Segundo números oficiais, em 2004 foram contabilizados 74 mil protestos públicos com mais de cem participantes, vinte mil a mais do que em 2003.
No passado, Deng Xiaoping chegou a admitir que nas reformas econômicas do socialismo modelo chinês “alguns deveriam ficar ricos em primeiro lugar”. Porém atualmente os líderes em Pequim já estão querendo colocar freios na expansão, tornando o crescimento mais sustentável.

Os sinais dados em Dongzhou e várias outras partes da China mostra que harmonia social está em perigo, sobretudo no meio rural chinês, onde vive a grande maioria: 800 milhões de pessoas. A população está reagindo de maneira cada vez mais sensível às injustiças. O medo de não conseguir embarcar no avião da “sociedade com um padrão de vida modestamente confortável” sonhada pelo Partido Comunista (ler reportagem “O sol nasce no Oriente”) devora a alma de muitos chineses. As diferenças sociais entre ricos e pobres cresce cada vez mais.

Vê-la pode ser surpreendente para quem só conhece o lado brilhante das metrópoles ricas. Isso ocorreu quando descobrimos uma favela localizada a poucos quilômetros do moderno e recém-construído aeroporto de Wuhan, a capital da província de Hubei, centro da China, com 8 milhões de habitantes. A favela não diferia das congêneres na América Latina: ruas não calçadas, postos de saúde em estado lastimável, doenças, lixo espalhado por todos os lados e idosos abandonados à própria sorte.

Segundo estatísticas do governo chinês, um entre dez crianças no país não freqüenta a escola, pois seus pais não têm dinheiro para pagar as tarifas. Provavelmente esse número é ainda maior. Apenas um por cento das pessoas nas zonas rurais entre 15 e 64 anos tem o ensino médio ou um diploma de curso superior.

Nos hospitais a situação não é melhor. Cerca de 900 milhões de chineses, sobretudo camponeses, não dispõem de seguro de saúde. Desde que o Partido Comunista dissolveu as comunas populares, cada chinês passou a ser responsável pela sua própria saúde. Quem tem dinheiro, paga para ser atendido. Quem não tem, pode até morrer no corredor de um pronto-socorro.

 
Idosa em Wuhan
A moradora idosa da favela de Wuhan não vê seu único filho há meses, pois está trabalhando em Xangai nas construções.

PC se lembra do povo

Até a mudança do poder em Pequim em 2004, poucas medidas haviam sido tomadas para combater os problemas que estão se agravando com o progresso. A prioridade até então era apoiar tudo que pudesse garantir o crescimento rápido.

O novo primeiro-ministro, Wen Jiabao, se preocupou desde o início de se aproximar do povo. Nos jornais chineses é comum ver suas fotos ao lado de mineiros ou camponeses. Para não ficar só na imagem, o governo começou a aplicar novas medidas para equilibrar a situação no campo.

As primeiras empresas poluidoras e funcionários corruptos já estão sendo reprimidos. O confisco de terras começa a ser debatido entre o governo central e as províncias. Ao mesmo tempo, escolas e hospitais devem receber mais dinheiro. Em 2005, os impostos rurais, uma fonte permanente de insatisfação no campo, foram reduzidos ou revogados em 28 províncias. A partir de 2006, o agricultor não precisará mais pagar ao Estado. O governo também quer investir 12 bilhões de yuans no ano que vem no combate a pobreza, informa a Rádio China Internacional. Um sistema social também já começando a ser estruturado, mesmo com a lentidão que obriga a complexidade da tarefa.

Se as medidas terão sucesso, ainda não se sabe. Porém os próprios comunistas sabem que na história do país, injustiças e pobreza na China sempre levaram ao caos. Na cultura popular, o imperador pode ser destituído se seu mandato divido for retirado pelo céu. Mesmo Mao Tsé-tung educou gerações inteiras na questão da luta de classes. Nesse sentido, a situação atual do país já estaria madura para uma revolução dizem alguns jornalistas.

 
Mao
O Livro Vermelho de Mao Tsé-tung poderia inspirar mais uma vez as massas?

Democratização graças ao capitalismo

Nos arejados escritórios do recém-construído e moderníssimo prédio do German Centre Shanghai em Xangai, cujo principal atividade é fomentar a vinda de pequenas e médias empresas européias à China, o gerente-geral Christian Sommer se mostra otimista. Há dez anos ele vive no país.

Na mesa de reuniões estão vários exemplares de livros lançados há poucos meses sobre a China e as possibilidades mágicas do seu mercado. Como ele mesmo admite, os problemas são graves e crescentes, mas podem ser solucionados pelo viés econômico:

- O investimento estrangeiro ajuda a melhorar as condições de vida e trabalho da população. Os salários pagos nas multinacionais e também o sistema social é muito melhor do que nas empresas chinesas. Na minha opinião, quanto mais a China se abrir ao mundo, maior será a pressão para a democratização do país – afirma.

Sua teoria está de acordo com a de outros especialistas, que citam exemplos de Taiwan, a ilha chinesa, que começou como uma ditadura de um partido único e que se transformou posteriormente em democracia. Graças ao seu desenvolvimento, surgiu uma classe média que teria começado a fazer pressão por reformas como participação política. A Coréia também seguiu o mesmo modelo.

Mas o tempo corre para o governo em Pequim. Apesar de pertencerem a uma nova geração de líderes do PC, eles seguramente também conhecem o Livro Vermelho, a famosa coletânea de citações de Mao Tsé-tung, que hoje é vendido como suvenir para os turistas que visitam a Cidade Proibida. Uma das duas frases mais conhecidas poderia servir de alerta:

- "A revolução não é o convite um convite para um jantar, a composição de uma obra literária, a pintura de um quadro ou a confecção de um bordado, ela não pode ser assim tão refinada, calma e delicada, tão branda, tão afável e cortês, comedida e generosa. A revolução é um insurreição, é um ato de violência pelo qual uma classe derruba a outra."

A esperança é que a população tenha paciência e que Mao Tsé-tung não se levante do seu mausoléu em Pequim.

Alexander Thoele, Pequim, Wuhan e Xangai

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