O país dos rios envenenados
 
 
02 de janeiro de 2006
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Poluição
Muitas empresas se instalaram nas margens do rio Yangtsé e poluem suas águas e o ar da região.
O milagre econômico cobra um preço caro à China: mais de dois terços dos rios e lagos estão contaminados, o ar das cidades irrespirável e os desastres ecológicos cada vez mais freqüentes.
 
Porém alguns poucos ecologistas querem reverter a situação, tentando convencer os jovens chineses a abandonar o consumo.
 

O turista japonês não poderia escolher um melhor momento. Ele acordou o mais cedo possível para ir ao restaurante panorâmico no último andar do hotel no centro de Xangai e tirar umas fotos do rio Huangpu. Um dos seus principais cartões postais são os prédios localizados na sua margem como o Oriental Pearl Tower, 468 metros de altura, considerada a torre de TV mais elevada da Ásia.

Porém o espanto foi grande. Da janela uma densa névoa amarelada cobria praticamente toda a paisagem, deixando ver apenas a silhueta das construções. O “smog” é um fenômeno diário provocado pela emissão de gases dos milhares de automóveis e indústrias desse região em plena expansão econômica na costa leste da China.

De acordo com um estudo do Banco Mundial, a China tem 16 das 20 cidades mais poluídas no mundo. As estimativas dizem que 300 mil pessoas morrem por ano devido a doenças respiratórias. Famosa ficou a frase do antigo primeiro-ministro Zhu Rongji, que em 1999 reclamou aos burocratas locais da qualidade de vida em Pequim. “A vida nessa cidade encurta a minha vida em pelo menos cinco anos”.

A situação é tão crítica, que até do espaço o problema é visto. Fotos de satélites tiradas pela Nasa em setembro de 2005 mostram uma gigantesca nuvem de poluição cobrindo a região oeste da China, a mais industrializada do país (clique abaixo na imagem da Nasa).

 
Xangai
Poluição cobrindo as torres no outro lado do rio Huangpu, em Xangai.

Pouco tempo para ecologia

Apesar dos problemas ecológicos vividos atualmente, a economia chinesa continua a todo vapor. Só em 2004 as taxas de crescimento ficaram em torno de 9%. Mesmo com o elevado preço pago em destruição ambiental, as lideranças em Pequim querem manter o ritmo. A fome de energia das suas indústrias e consumidores é insaciável. Ao mesmo tempo, o país precisa ocupar milhões de camponeses que estão abandonando as zonas rurais para procurar empregos nas grandes cidades.

Colocando a China no patamar dos países industrializados, ela ainda está engatinhando no desenvolvimento. Em geração de energia, o país está equiparado com a Grã-Bretanha. Segundo o Banco Mundial, a renda per capita de 2004 ficou em 1.290 dólares, o que a coloca atrás de países como Peru (US$ 2.360), Brasil (US$ 3 mil) e anos-luz distante de Luxemburgo (US$ 56 mil), Noruega (US$ 52 mil) ou a Suíça (US$ 48 mil). A China ainda é um país pobre levando em conta a riqueza distribuída entre seus 1,3 bilhões de habitantes.

Porém o plano do governo chinês é alcançar o primeiro mundo até 2025 (ver reportagem “O sol nasce no Oriente”).

O que fica por escanteio é o meio-ambiente. A dependência do carvão como forte energética para a China e outros países no mundo é um dos grandes desafios do futuro. Na China, 70% da sua energia é gerada em centrais térmicas, na sua grande maioria já defasadas e extremamente poluidoras (ler reportagem “As cidade do futuro”). Em grande quantidade, elas expelem óxido de enxofre (SO2), óxido nítrico e dióxido de carbono (CO2), gás que é um dos principais causadores do efeito estufa. Hoje a China já é o maior emissor mundial de SO2 e o segundo de CO2, depois dos Estados Unidos.

No ritmo atual de crescimento do país – mesmo na política oficial de dar aos chineses o “padrão de vida modestamente confortável”, a China pode passar da importação anual de petróleo de 100 milhões de toneladas (2004) para 400 milhões nos próximos vinte anos. Nesse cenário, as emissões de gases na atmosfera chegarão a níveis que podem até colocar em risco o equilíbrio do planeta.

 
Guandong
Falta de água: seca de longa duração na província de Guandong em 2004 (foto: Greenpeace / Gary Braasch)
 
Rios envenenados

Água é um bem cada vez mais raro. Especialistas profetizam no futuro conflitos sérios por ela, inclusive guerras. Na China o problema também existe. Lá as lutas já ocorrem: camponeses contra empresas, províncias contra províncias, cidades contra cidades. Um exemplo é dado por Pequim e Tianjin, duas grandes metrópoles que disputam pela água do rio Juhe. Entre 1990 e 2002, cerca de 120 mil disputas em torno da água ocorreram na China. O número é dado sem censura pelo Ministério dos Recursos Hídricos do país.

Também a poluição já está atingindo índices alarmantes. Segundo dados da Cooperação Alemã (GTZ), mais de dois terços dos rios e lagos estão contaminados. Apenas metade das cidades têm acesso regular a água. Além disso, a distribuição é desigual: no norte da China, onde vivem 47% da população e onde estão 64,8% das terras cultiváveis, se encontram apenas 19% da água. A com a tendência da urbanização do país, a situação está piorando cada vez mais.

Um exemplo ocorreu em Harbin, capital da província de Heilongjiang, no norte do país. Quando seus habitantes acordaram na manhã de 24 de novembro, o rio Songhua, que corta a cidade, estava coberto por uma mancha de 80 quilômetros quadrados formadas por uma mistura de benzeno e nitrobenzeno, substâncias químicas altamente cancerígenas e tóxicas.

O despejo no Songhua foi causado pela explosão de uma central petroquímica da estatal Petrochina, na cidade de Jilin (alto curso do rio). O acidente provocou cinco mortes e provocou a retirada de 10 mil pessoas da região. A explosão havia ocorrido em 13 de novembro, mas as autoridades levaram quase duas semanas para comunicar o fato. Cerca de 100 toneladas das substâncias químicas vazaram no rio. O fornecimento de água na cidade de Harbin, de 3,8 milhões habitantes, teve de ser interrompido por cinco dias

Apenas um mês depois da catástrofe de Harbin, em 21 de dezembro, um outro desastre ecológico obrigava a novos cortes de água no sul da China. Dessa vez o vazamento tóxico ocorreu na cidade de Shaoguan, província de Cantão.

Grandes quantidades de cádmio, uma substância altamente tóxica e usada na produção de equipamentos eletrônicos haviam sido derramadas acidentalmente no rio Beijiang por uma fundição estatal de zinco. O acidente provocou o corte no fornecimento de água de Yingde, uma cidade 1 milhão de habitantes localizada 90 quilômetros rio abaixo. O cádmio pode causar danos hepáticos e renais e, combinado com outros elementos, pode levar ao câncer.

 
Foto de satélite
Clique na imagem para ver a foto de satélite mostrando a nuvem de poluição (foto: Nasa, setembro de 2005)

Leis inócuas e prejuízos

Leis para combater a poluição não faltam na China, porém elas dificilmente são aplicadas. Para oferecer melhores condições às empresas que se instalam nos seus territórios, os governos das províncias costumam fechar os olhos aos problemas e abusos cometidos. Ao mesmo tempo, a corrupção é ordem do dia: num estudo da OCDE, feita pelo seu pesquisador Janos Bertok, ela seria da ordem de 50 a 84 bilhões de dólares, o que corresponde a 3 e 5% do PIB nacional.

Na opinião de alguns especialistas, o que falta também é a paixão pelo tema.

- Ainda falta compreensão na China para os problemas ambientais. O país está adiantado em pesquisas industriais na área de biotecnologia, mas na proteção do meio-ambiente eles têm grandes fraquezas - nota Paul H. Suding, chefe da divisão de energia e meio-ambiente da Cooperação Técnica Alemã (GTZ).

Ele lembra porém que o interesse dos chineses na limpeza vista nas ruas alemãs, durante suas visitas oficiais, é grande.

- Sempre perguntam como é possível manter as cidades nesse estado – nota.

Para Elizabeth C. Economy, pesquisadora do Conselho para Estudos Asiáticos de Relações Internacionais e conhecida autora do best-seller sobre a questão ecológica na China - "The River Runs Black", é necessário haver uma mudança total da política ambiental do governo chinês.

- "É improvável que os líderes em Pequim reconheçam no desastre de Harbin o que ele foi realmente: um sinal de alarme mostrando que, sem reformas reais, o país está arriscando viver um cenário de milhões de pessoas doentes, grande perturbações sociais e, possivelmente, até o fim do milagre econômico chinês", escreveu Economy num artigo recentemente publicado em novembro na revista Time Asia.

A pesquisadora americana não está brincando. Sua análise baseia-se também em dados concretos como os publicados pelo Banco Mundial, que calculou as perdas à economia da China pela poluição entre 8 a 12% do seu PIB de US$ 1,4 trilhões.

 
Liang Congjie
Liang Congjie é considerado por muitos como a consciência ecológica da China.

O “Dom Quixote” da ecologia

Encontrar um chinês que coloque em dúvida o progresso não é fácil. Quase todos os habitantes do país, pobres ou ricos, acreditam que também podem embarcar no trem do enriquecimento. Proteção a natureza é um tema que ainda engatinha na opinião popular.

Mas a China também tem seus ecologistas. Com um pouco de esforço, é possível encontrá-lo no terceiro andar de um velho prédio comercial no centro de Pequim, cercado de escolas e residências.

- Fui convidado pelo vice-prefeito de Pequim para trabalhar na organização da Olimpíada de 2008. Porém não aceitei. O prefeito sabe que eu sou contra essa idéia. A razão é que nossa capital não tem os recursos naturais suficientes para organizar um evento dessas dimensões. Nessa época do ano, onde o calor atinge seu pique máximo, como iremos suprir de água mais de um milhão de visitantes durante essas três semanas?
- se pergunta Liang Qichao, 72 anos (escutar áudio).

Filho do famoso reformador Liang Qichao, que no início do século passado tentou reformar a dinastia Qing (1644–1911), a última da China, Liang Congjie nasceu em 1932, trabalhou como historiador no Instituto de Relações Internacionais de Pequim e depois como editor de uma enciclopédia chinesa com 74 volumes.

Em 1988, ele se tornou professor de história em Pequim e, desde 1994, presidente da única ONG ecológica reconhecida oficialmente na China, a “Friends of Nature”. Para muitos, Liang é a consciência ecológica da China.

- Os jornais ocidentais gostam de chamar a China de fábrica do mundo. Muitos chineses têm orgulho disso. Porém na minha opinião, nós estamos nos transformando na cozinha do mundo, onde fazemos a comida e depois temos de limpar a louça suja. Me pergunto se isso é crescimento sustentável! (escutar áudio)

Para Liang, uma ONG ecológica na China não pode se dar ao luxo de organizar protestos midiáticos no estilo do Greenpeace. Pelo contrário, a “Friends of Nature” trabalha em conjunto com o governo fornecendo uma espécie de consultoria.

- Temos diversos projetos, como visitar escolas e explicar às novas gerações a importância da proteção ambiental. Ao mesmo tempo, enviamos voluntários aos povoados mais pobres para fazer o mesmo trabalho. Também tentamos dar boas idéias ao governo e aconselhá-los sobre questões ecológicas.

Apesar dos esforços de Liang e sua equipe, formada por jovens chineses e estrangeiros que trabalham no pequeno escritório em Pequim, a luta para defender o meio-ambiente é inglória. Não apenas os problemas naturais como a desertificação e o crescimento populacional se mostram de difícil solução, mas também o “boom” econômico não dá sinais de fraqueza. E hoje a indústria poluidora não trabalha apenas para a exportação, mas também para a febre de consumo dos chineses, que agora já dá sinais de epidemia.

- Você tocou num ponto fundamental. Não posso impedir que um jovem sonhe em comprar um carro. Mas tenho de explicar que a China é um país de recursos naturais limitados e que não podemos nos dar o luxo a ter uma vida luxuriosa (escutar áudio).

Porém seu otimismo não esmorece. Sua esperança está depositada nas próximas gerações.

- Nossos esforços de proteger a natureza são minúsculos como um grão. Mas lembro que de sementes nascem as árvores.

Alexander Thoele, Pequim e Xangai

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Audio Liang Congjie - "Sou contra a Olimpíada de Pequim" (real - 1,94 MB)
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