|
A antiga Fengdu lembra mais um cenário de guerra. Por todos os lados nessa conhecida cidade localizada nas margens do rio Yangtsé, no sul da China, só se vêem pedras e ruínas. Nos poucos prédios que ainda estão de pé, há meses desabitados, centenas de operários trabalham com mãos nuas.
Vestido com roupas comuns e equipados apenas com capacetes e picaretas, eles demolem um a um os esqueletos de concreto separando dos escombros o que pode ainda ser aproveitado, como vergalhões de aço e armações de janelas.
A possibilidade de implodir toda a área é refutada pelo guia turístico. “É mais barato empregar essas pessoas e aproveitar o material reciclado do que gastar dinheiro em dinamite”, explica. Ao avistar um carro da polícia não muito distante do canteiro de obras, ele solicita mais pressa ao grupo. Os três policiais não intervêm, mas terminam acompanhando os turistas até a entrada no parque arqueológico da cidade.
Há menos de três anos Fengdu era um dos pontos turísticos para os milhares de viajantes do rio Yangtsé. Com 50 mil habitantes, ela também era conhecida também como a "cidade fantasma” devido ao caráter religioso. Nos seus mais dois mil anos de idade, ela tão sagrada para os taoístas como local de peregrinação como Meca o é para os muçulmanos. Alguns dos seus mosteiros foram construídos há 1.200 anos.
Porém o governo chinês decidiu construir uma gigantesca barragem para fazer funcionar as turbinas da hidrelétrica de Três Gargantas. O lago formado irá afundar 13 cidades de grande porte, 140 de pequeno, 1.352 povoados e 657 fábricas segundo os cálculos oficiais. Também 600 sítios históricos irão desaparecer sob as águas.
A sorte de Fengdu é que grande parte dos seus prédios históricos, como os templos, está em cima da montanha, 620 andares acima do nível da água como indicam os guias turísticos. Ela se transformará numa ilha, depois que o lago estiver cheio.
A grande parte dos habitantes de Fengdu foi transferida para uma outra cidade construída recentemente do outro lado do rio pelo governo. Cinza, moderna e impessoal, ela está localizada numa distância segura das águas. Seus prédios modernos já estão em grande parte habitados.
|
 |
| Casas abandonadas e em demolição de Fengdu, cidade de 50 mil habitantes às marges do rio Yangtsé e conhecida também como "cidade fantasma". |
|
A maior obra depois da Muralha
O sacrifício da população será imenso. Quando a hidrelétrica de Três Gargantas estiver concluída – a previsão é de funcionamento pleno a partir de 2009 - a altura da barragem principal será de 185 metros. A água irá alcançar o nível de 175 metros. O lago formado terá uma extensão de 600 quilômetros e uma profundidade média de 70 metros. Para se ter uma idéia do gigantismo: o lago de Itaipú tem uma extensão de apenas 170 quilômetros.
Para dar espaço às águas, as autoridades chinesas irão reassentar cerca de dois milhões de pessoas.
O custo da construção da hidrelétrica de Três Gargantas são também explosivos. Inicialmente estavam previstos US$ 26 bilhões. Até 2002 já haviam sido gastos US$ 50 bilhões. Segundo os cálculos atuais, o número final deve ficar por volta dos US$ 75 bilhões até sua conclusão em 2013. Essa conta salgada é paga em grande parte pelos
bancos estatais de desenvolvimento (65%) e o resto pelo contribuinte, que é obrigado a pagar um imposto especial.
Porém a grande maioria dos chineses festeja a obra como se fosse a construção da segunda Muralha da China. Não muito distante da barragem, as autoridades construíram um centro de exposição, onde os mais diferentes suvernirs são vendidos aos turistas. Chineses e estrangeiros invadem diariamente o local com seus ônibus para admirar a obra. Até militares, que também participam da construção (ver galeria de fotos), vêm tirar suas fotos.
Os guias locais também gostam de contar que sua usina irá superar Itaipú no número de turbinas empregadas (26 contra 18) e na potência instalada de 18.200 MW (contra 12.600 MW).
O orgulho nacional é reforçado com os argumentos oficiais que lembram os aspectos ecológicos do projeto. Um deles é que a hidrelétrica de Três Gargantas fornecerá a mesma quantidade de energia que 16 usinas nucleares. Outro é o controle das inundações, que costumam atingir a região provocando regularmente centenas de mortos e milhares de desabrigados.
E para o transporte a hidrelétrica também promete: sua barragem deve melhorar da navegabilidade do rio Yangtsé, por onde hoje já trafegam um número considerável de navios. O sonho é de possibilitar a vinda das embarcações de grande calado.
|
 |
Clique sobre a imagem para ver uma foto aérea da região onde foi construída a Hidrelétrica de Três Gargantas.
|
|
Problemas ecológicos e sociais
A idéia de construção da Hidrelétrica de Três Gargantas não veio dos comunistas, mas sim de Sun Yat-sen, o primeiro presidente da República da China a partir de 1911. Depois de anos esquecido na gaveta, apenas Li Peng, primeiro-ministro da China entre 1987 e 1998, iria finalmente realizá-lo, apesar da sua impopularidade devido ao seu papel no massacre da Praça da Paz Celestial em 1989. A coincidência: ele era engenheiro especializado em hidrelétricas.
As obras começaram em 1994. Nos seus canteiros chegaram a trabalhar até 18 mil operários. Em primeiro lugar o leito do rio foi transferido para um canal de 3,7 quilômetros, quando então foi possível começar a construir a barragem. Em 1. de junho de 2003 as eclusas foram fechadas e iniciou-se a inundação parcial do Yangtsé. Em 24 de junho de 2003 a primeira turbina de 550 megawatts entrou em funcionamento.
A grandiosidade de Três Gargantas infla o espírito patriótico dos chineses. Ao mesmo tempo, poucos sabem que existem também vozes críticas ao projeto. Porém o tema é considerado tabu para a mídia nacional. Apenas no exterior que os protestos são ouvidos e debatidos.
Quando a usina ainda estava nas pranchetas, a oposição de engenheiros e cientistas chineses antes de 1989 já era considerável. Hoje a oposição vem de várias ONGs ecológicas espalhadas pelo mundo. Os governos ocidentais são mais discretos, já que os interesses das suas empresas no projeto é grande. Um exemplo: a Siemens e a Voith, da Alemanha.
Dentre os argumentos contrários um dos mais importantes é o risco de assoreamento do rio Yangtsé pelas gigantescas massas de sedimentos e detritos carregados nas suas águas. O fenômeno pode colocar em risco não apenas a navegabilidade do rio e o controle de cheias, mas também a própria capacidade de geração de energia da Hidrelétrica de Três Gargantas.
Outras questões são os riscos de terremoto nessa região conhecida por sua instabilidade geológica. Os guias turísticos explicam que a muralha de concreto da hidrelétrica foi construída numa base de granito. Lá a terra pode tremer sem problemas.
Inquestionável são as perdas de centenas de templos e outros monumentos arqueológicos, além do problema ambiental. Inúmeros ecologistas alertam para o desaparecimento de espécies de peixes, que não poderão mais circular livremente ou viver no lago, além de plantas e outros animais. Também a vegetação que irá apodrecer sob as massas de água irá provocar a emissão de metano na atmosfera, o que aumenta ainda mais o efeito estufa.
E o perigo mais grave de todos é a questão social. As duas milhões de pessoas que serão assentadas, em grande parte camponeses, vão perder seu meio de sobrevivência graças à inundação das suas terras. Mesmo com as indenizações pagas, essas pessoas não sabem o que poderão fazer nos seus apartamentos, construídos à centena nas novas cidades ao longo do rio. As denúncias de malversação das indenizações são cada vez mais comuns. Os exemplos não faltam.
Em dezembro de 2005, um importante funcionário público foi condenado à morte por desviar fundos de indenização para povoados removidos durante as obras da Usina Hidrelétrica das Três Gargantas. O condenado ocupava a chefia do escritório de aquisição de terras do distrito de Wushan, um dos inundados pela represa. Ele teria desviado 512 mil dólares dos fundos de compensação.
|
 |
| O sistema de transposição da hidrelétrica de Três Gargantas é composto por cinco eclusas. A passagem dos navios pode durar algumas horas. |
|
Energia é o alimento do “boom” econômico vivido pela China nos últimos anos, mas cada vez mais escasso frente a sede gigantesca das produções e do consumidor. Uma das vítimas são as próprias empresas, que sofrem com os apagões freqüentes. No verão, fábricas localizadas nas zonas industriais das megalópoles Pequim e Xangai precisam trabalhar durante a noite, pois nesse período do ano milhares de sistemas de ar condicionado funcionam a todo vapor para climatizar escritórios e residências durante o dia, causando black-outs pela excessiva demanda na corrente elétrica.
As usinas termelétricas à base de carvão, onde é gerado o grosso da energia do país (mais de dois terços), não conseguem atender a necessidade crescente de energia. Em 2003, os apagões faziam parte do cotidiano de 21 províncias. Um ano depois já eram 24 províncias atingidas pelo problema.
Sem energia a China não conseguirá cumprir suas metas de crescimento. E sem crescimento, as conseqüências para o país são gravíssimas. Segundo um estudo da Organização de Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OECD na sigla em inglês), metade dos 800 milhões de habitantes das zonas rurais está de fato desempregada. Cerca de 200 milhões dessas pessoas sobrevivem através de subempregos nos grandes centros urbanos. Os protestos aumentam ano a ano.
A pressão é considerável. Os líderes em Pequim reagem através de um plano econômico que deve privilegiar mais o crescimento sustentável. O lema oficial é “construção de uma sociedade com um padrão de vida modestamente confortável” (ler artigo "O sol nasce no Oriente"). O governo quer controlar a evasão do campo e desacelerar o crescimento das grandes cidades. Até 2020, a renda per capita deve passar dos 1000 dólares atuais para 3 mil. Para alcançar esse objetivo, o PIB deve quadruplicar até esse ano, o que corresponde a taxas anuais de crescimento de 7%.
Porém o plano pode fracassar devido aos freqüentes apagões ou o estado lastimável das centrais elétricas, assim como o aumento exponencial do consumo de energia. A China precisa modernizar seu parque gerador. A lógica é o investimento em qualquer forma de resolver o problema, mesmo a custos do sofrimento de parte da população.
|
 |
"Nosso futuro está nas hidroelétricas", afirma Si Zefu.
|
|
Tecnologia chinesa em Três Gargantas
Para o jovem executivo Si Zefu, presidente da Dongfang Electric Corporation, o maior provedor chinês de equipamentos para centrais elétricas, as perspectivas futuras são otimistas. A empresa estatal também participa do projeto da Hidrelétrica de Três Gargantas através do fornecimento de algumas das vinte e seis turbinas.
- “Estamos ativos em vinte diferentes países do globo, mas ainda somos um exemplo de indústria estratégica da China, onde o Estado ainda está presente”, explica Zefu durante uma entrevista dada aos jornalistas da journalists-network em Chengdu. Ao contrário da grande parte dos funcionários, o executivo, que também é professor de engenharia, não solicita perguntas por escrito e fala abertamente do potencial da energia hidroelétrica.
Atualmente, de 15 a 18% da energia gerada na China vêm das hidrelétricas. Si Zefu espera que essa proporção aumente nos próximos anos graças à política conduzida pelo governo em Pequim de privilegiar fontes de energia renováveis. Por isso a carteira de encomendas de empresa já está completa até 2009.
- O futuro de nosso país está na energia hidrelétrica, inclusive por uma questão ecológica – reforça Zefu, que relativiza também as conseqüências desses grandes projetos para o meio-ambiente e às populações das regiões inundadas, lembrando a importância do investimento em infra-estrutura para o desenvolvimento da região oeste do país. A lógica é simples: para os governos das províncias, a melhoria do parque energético traz indústrias, que irão gerar empregos aos milhões de camponeses desapropriados nos últimos anos.
Confrontado com à crítica dos grupos ecológicos, de que o governo chinês promove mais o consumo e a indústria do que economia de energia, Zefu é tácito:
- Se quisermos alcançar o mesmo patamar de riqueza da Alemanha, não podemos pensar apenas em poupar energia. O mais importante é reduzir o número de termelétricas, pois as reservas de carvão no planeta são limitadas e os danos para o meio-ambiente são elevados.
Fornecedores de equipamentos como a Dongfang têm dias promissores pela frente. As carências energéticas são tão grandes, que os líderes em Pequim não podem se dar ao luxo de pensar apenas em fontes renováveis de energia. Para eles também a energia nuclear é uma boa alternativa.
No setor a Dongfang já faz bons negócios. Graças a sua tecnologia e de outras empresas chinesas, o país possui atualmente 11 reatores que são utilizados para a produção de energia. Juntos eles geram 8,7 gigawatts, que suprem apenas 2,4% das necessidades energéticas atuais.
Até 2020 esse potencial deve passar para 40 gigawatts, o que será suficiente para suprir 4% das necessidades futuras. Para isso o governo planeja investir 400 bilhões de yuans (50 bilhões de dólares) na reforma do seu parque nuclear. No total, 40 usinas nucleares devem ser instaladas. As duas primeiras já foram anunciadas: eles serão construídas nas províncias de Liaoning (nordeste do país) e de Shangdong (leste) em 2006.
Alexander Thoele, Chengdu e Xangai
|