O sol nasce no Oriente
 
 
02 de janeiro de 2006
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Transrapid
O Transrapid sai da estação Long Yang Road e gasta oito minutos para chegar até o aeroporto de Xangai. Foto: Stoiber Productions, München.
Depois de cinco séculos adormecida, a China renasce como uma potência que coloca em jogo a dominância cultural e econômica do Ocidente.
 
Ela consegue o que poucos países no mundo já realizaram: crescer por mais de duas décadas a taxas recordes, retirando milhões de pessoas da pobreza e as colocando na era da tecnologia.
 

A China tem pressa. Para entender a velocidade como funciona esse país, a melhor maneira é pegar o Transrapid em Xangai. O trem magnético suspenso percorre em velocidades de até 430 km/h o percurso de 31,5 quilômetros que separam a estação “Long Yang Road Station” do novo aeroporto de Xangai, Pudong.

A viagem dura apenas oito minutos, mas do ponto de vista tecnológico, trata-se de um salto de anos-luz em direção ao futuro. O contraste não poderia ser maior, sabendo-se que a tecnologia foi desenvolvida pela Alemanha, mas que não pode utilizá-la comercialmente no seu próprio território devido aos custos elevados e aos protestos da população. Eles não querem ver um trem-bala cortando suas terras.

Porém na virada do século - paradoxo histórico - os dirigentes do Partido Comunista Chinês decidiram que Xangai precisava um projeto desse calibre. A próxima Expo 2010 foi um dos argumentos. As negociações foram acirradas entre as empresas do consórcio internacional e o parceiros chineses. No final, o contrato milionário foi assinado como era do interesse da China: transferência tecnológica e construção dos trens no próprio país. Em 2002 os engenheiro realizaram a primeira viagem de teste. Desde então, cinco milhões de turistas e chineses já foram transportados nos trens sem roda, que deixariam muitos aviões para trás se pudessem também voar.

Não há dúvida que a China será uma das grandes potências do futuro. Além de ter se transformado na fábrica do mundo, ela sonha alto como mostrou seu "taikonauta" Yang Liwei, que pilotou a primeira nave espacial tripulada chinesa a viajar para o espaço, a Shenzhou V. Nada mal para país, onde há trinta anos a fome ainda estava na ordem do dia.

Lembrar apenas que seus 1,3 bilhões de habitantes são governados por um regime que não respeita os direitos humanos seria parcial. Na realidade, ele conseguiu tirar mais pessoas da pobreza do que qualquer outro país na história contemporânea. Sua estratégia de conquista dos mercados mundiais mostra também que a China, ao contrário da maioria dos países, não joga simplesmente seus camponeses e empresas no coliseu da livre concorrência modelo ocidental. Ela abre sua economia quando quer e como quer. O ritmo é determinado por seus interesses. Graças a China, nunca se transferiu tantos recursos (investimentos) do primeiro ao terceiro mundo.

Números? Desde 1980, 400 milhões de chineses saíram da absoluta pobreza segundo índices internacionais. No final de 2005, o Programa Mundial de Alimentos (PMA) da ONU retirou a China da sua lista de países receptores. Agora ela é doador.

Ao mesmo tempo, 260 milhões de chineses dispõem hoje em dia de economias familiares da ordem de 20 mil dólares. Eles são os primeiros representantes da uma classe média, que conseguiu nos últimos anos do milagre econômico melhorar consideravelmente sua situação financeira.

 
Xangai
Na usina termoelétrica de Waigaoqiao, Xangai, funcionária posa com o emblema do Partido Comunista na lapela.

China ultrapassa Inglaterra e França

O correspondente do jornal alemão “Handelsblatt” em Pequim, Frank Sieren, vê da seguinte forma as transformações na China:

- “Nos tempos de Mao Tsé-tung, prosperidade significava as quatro necessidades: bicicleta, radio, relógio e máquina de costura. Hoje em dia, os chineses vivem sob o lema de três necessidades: bons salários, educação e, como símbolo de boa alimentação, volume corporal" – conta no seu livro “O código da China”.

Os sinais de que a China já entrou numa outra era são vistos por todos os lados. Um exemplo está no PIB: muitos economistas já suspeitavam que a economia chinesa fosse mais forte do que a realidade espelhada nas estatísticas oficiais. No ano passado o país já havia passado para o patamar de sexta maior economia do planeta.

Também no final de 2005, técnicos do Instituto Nacional de Estatísticas da China anunciaram discretamente algumas correções nos índices, dessa vez incluindo uma melhor análise das riquezas geradas no setor de serviços. Feito os cálculos, o PIB chinês de 2004 ficou estimado em 2 trilhões de dólares e não mais 1,65 trilhões. Isso significa um aumento de 16,8%, que se traduz na fantástica soma de 283,6 bilhões de dólares.

Através das correções, os especialistas já estimam que a China poderá ser considerada, em 2005, a quarta economia do mundo, ficando apenas atrás dos Estados Unidos, Japão e Alemanha. Se mantiver as taxas médias de crescimento, 9% ao ano, em 2035 ela deve ultrapassar os EUA, como analisou recentemente o "New York Times". Abrir gráfico

Os impressionantes números não são utilizados como propaganda do sucesso indiscutível da política econômica pelo governo chinês. Os líderes em Pequim preferem o perfil baixo. Como já havia sido anunciado pelo presidente chinês, Jiang Zemin, durante o XVIº Congresso Nacional do Partido Comunista da China em novembro de 2002, o objetivo do governo é garantir a "sociedade de vida modestamente confortável".

Com o anúncio do PIB de 2 trilhões de dólares em 2004, a preocupação é diminuir a parte dos investimentos no PIB, considerada muito elevada, e crescer a confiança dos investidores numa economia mais madura e diversificada. O governo quer também melhorar a renda individual para criar consumo externo. Eles sabem que não é bom uma economia depender apenas das exportações, uma situação arriscada durante uma crise internacional. Abrir gráfico

Reunidos em outubro de 2005, os membros do comitê central do PCC já definiram quais serão as metas do próximo plano qüinqüenal – o 11º da história do país - que abrange o período entre 2006 e 2010.

Seu principal objetivo é duplicar o PIB per capita alcançado em 2000 até 2010, diminuindo as enormes diferenças de desenvolvimento entre as regiões rurais e urbanas. Enquanto cidades como Xangai, Pequim, Shenzhen (cidade com o maior PIB per capita da China: 10 mil dólares), Guangzhou, Xiamen ou Fuzhou já pertencem ao mundo desenvolvido, as províncias do centro e da região oeste da China ainda estão no "Terceiro Mundo". As Seis províncias costeiras - do total de 22 províncias, cinco regiões autônomas e quatro capitais com status de municípios centrais ligados à Pequim - geram mais da metade do PIB chinês.

Os membros do PCC também admitem que terão de alterar os métodos empregados para obter o crescimento econômico. “Precisamos aumentar a capacidade de inovação, aprofundar a política de reforma e abertura econômica e reduzir em 20% o consumo de energia nos próximos cinco anos”, anunciou o comunicado emitido após a reunião de outubro em Pequim.

Na luta do governo chinês de levar o país aos ideais de “construção de uma sociedade com um padrão de vida modestamente confortável”, como diz o lema oficial, uma das armas mais eficientes é a política de investimento em educação e transferência tecnológica, no qual as empresas estrangeiras têm um papel fundamental. Obviamente, elas não o fazem por caridade, mas sim de olho no gigantesco mercado chinês.

 
Pequim
Novos ricos em Pequim: um Rolls-Royce Phantom 2005, cujo preço básico é de US$ 320.000, estacionado na frente do China World Hotel.
 
Nação hi-tech

Os conhecimentos que chegam no país através da pirataria – talvez seguindo o exemplo japonês, dos contratos de joint-venture – a única porta de entrada na China para o investidor estrangeiro – e os pesados recursos alocados para a pesquisa começam a dar frutos para a China.

Durante décadas o país foi considerado uma potência mundial na produção de brinquedos baratos, fogos de artifício e falsificações. Outro clichê é vê-lo como um depósito humano de mão-de-obra barata para a manufatura mundial.

O espanto foi grande quando, em 12 de dezembro de 2005, a Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE) anunciou que a China havia se tornado recordista mundial em exportação nos setores estratégicos de tecnologias da informação e de telecomunicação. Segundo cálculos da organização, o país exportou mercadorias no valor de 180 bilhões de dólares. Os EUA ficaram em segundo lugar, com 149 bilhões de dólares. Abrir gráfico

O apetite voraz do país na compra de máquinas para produção e no acesso às novas tecnologias, já está refletindo nos números do comércio exterior.

Nos dez primeiros meses de 2005, a agência de notícias Xinhua anunciou que, pela primeira vez na sua história, a China estava exportando mais veículos do que importava. No caso do aço inoxidável, analistas opinam que a China se tornará exportadora líquida já em 2005. No setor dos eletrônicos, a China se equipou nos últimos anos pesadamente de fábricas de semicondutores, apesar de ainda estar atrás dos coreanos ou japoneses. E nos eletrodomésticos, os chineses não apenas já estão atendendo seus próprios mercados, mas também cada vez mais presentes nas exportações como mostram empresas como a TCL (televisões) e Huawei (telecomunicações).

 
Lenovo
Depois de comprar parte da IBM, Yang Yuanqing passou a ser conhecido pela imprensa internacional. Foto: (AP Photo/Vincent Yu).

Multinacional desconhecida

Não foi um blefe. Quando Lenovo, o maior fabricante de equipamentos de informática da China e um nome desconhecido para a grande maioria das pessoas, comprou em dezembro de 2004 por US$ 1,75 bilhão a divisão de computadores pessoais do gigante americano IBM, muitos analistas quase caíram das cadeiras.

O ícone do capitalismo americano desmembrado por asiáticos? Isso seria como se a DaimlerChrysler deixasse de desenvolver motores para se dedicar apenas ao marketing e distribuição dos seus produtos.

Yang Yuanqing é o nome do empresário que decidiu dar uma outra imagem para a China: a de país da alta tecnologia. Há dez anos ele dirige a Lenovo, que passou de uma pequena empresa comercial para uma multinacional capaz de fazer tremer os maiores concorrentes. Com a compra, ela passou do oitavo lugar para o terceiro na lista dos maiores fabricantes de microcomputadores do mundo, lugar que a IBM já ocupava. Em primeiro está a Dell e em segundo a Hewlett-Packard.

Outro exemplo da investida oriental no ocidente ocorreu em setembro desse ano, quando a montadora chinesa Nanjing Automobile comprou por 86 milhões de euros os ativos da falida MG Rover, a lendária fábrica de automóveis inglesa. De quebra eles ainda levaram o fabricante de motores e engrenagens Powertrain.

Os diretores não escondem que, com a compra, pretender expandir a presença da empresa chinesa na Europa. Uma parte da produção deve ser transferida para de Birmingham para a China. Na Grã-Bretanha continuarão a ser produzidos os modelos esportivos MG, o que assegura a manutenção de dois mil empregos no país. Assim a argumentação utilizada por muitos sindicalistas de que a mão-de-obra barata na China explica o desemprego crônico em potências européias como a Alemanha ou a França se torna mais diluída.

A globalização não é uma mão de via única. Nem a IBM ou a marca Rover vão desaparecer do mercado. Seus investidores apenas mudaram de nome. A empresa americana que desempenhou um papel central na história da informática com o lançamento do PC em 1981, passa agora a se dedicar a outros negócios de futuro como serviços ou o Linux.

Com a investida da China no mundo, essa tradicional nação de comerciantes apenas mostra sua versatilidade e capacidade de aprendizado. Depois de dar a humanidade no passado três das suas grandes descobertas - impressão, pólvora e imã - seguramente ela será uma contribuição ao desenvolvimento mundial, apesar do riscos que sua acessão possa causar ao equilíbrio social, ecológico e econômico no globo. O medo existe e se mostra quando políticos populistas na Alemanha afirmam que a riqueza da China será a pobreza de todos.

Porém o Partido Comunista já demostrou que aprendeu com a história. O pragmatismo está escrito em letras garrafais no seu programa desde que Deng Xiaoping sucedeu Mao Tsé-tung no poder, após sua morte em 1976, e aboliu o dogmatismo maoísta marcado por tantas tragédias e fracassos. Dessa época vem uma frase de Deng que terminou sendo o lema atual do processo de modernização do país: - “Não importa se um gato é preto ou branco. O importante é que ele cace ratos”.

Alexander Thoele, Pequim

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Gráfico
Gráfico PIB 2005 da China no mundo
 
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