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Caro leitor: antes de você começar a ler essas linhas, gostaria de me apresentar e explicar o que motivou a criação desse especial.
Não sou sinólogo, correspondente em Pequim ou analista econômico especializado nos mercados asiáticos. Trabalho como editor e redator do site em português da Rádio Suíça Internacional (www.swissinfo.org), onde acompanho as notícias e contextos desse pequeno país encravado no meio da Europa que, apesar da situação geográfica, é um dos mais internacionais do continente.
Como membro da “journalists.network”, uma associação internacional baseada em Berlim e que organiza anualmente viagens de pesquisa para jornalistas a diferentes partes do globo, acompanhei de 12 a 22 de novembro de 2005 um grupo de doze colegas numa excursão que nos levou para cidades como Pequim, Chengdu, Chongqing e Xangai, além de outras regiões rurais do país.
Durante esses dias tivemos não apenas encontros com algumas personalidades dos círculos políticos e econômicos, mas também participamos de discussões sobre problemas ambientais e sociais com ativistas ecológicos, urbanistas e investidores, além de dialogar com os perdedores do “boom” econômico chinês: camponeses e habitantes pobres nos subúrbios das grandes cidades. Como “high-light” turístico, fizemos também um passeio de navio pelo rio Yangtsé até chegar no gigantesco canteiro de obras da hidrelétrica de Três Gargantas, que muitos chineses já chamam de “a segunda Muralha da China”.
Cansado de ser bombardeado pela mídia com informações e cético em relação a esse fascínio e medo associados a China, percebi que essa viagem daria a oportunidade de formar minha própria opinião. Obviamente esse esforço só poderia ser justificado se também compartilhasse as experiências com outras pessoas nessas páginas.
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| Kirstin Wenk, jornalista do "Die Welt", posando no topo de uma usina térmica em Xangai. |
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A viagem começou mal. No dia 12 de novembro, numa manhã cinzenta e fria típica do inverno alemão, um pequeno grupo se reuniu num dos saguões do aeroporto de Frankfurt. A apresentação foi curta, tempo suficiente para descobrir que éramos jornalistas da imprensa escrita, televisão e rádio, além de vivermos em diferentes cidades da Europa: Berlim, Berna, Hamburgo ou Heilbronn.
Porém, quando os passageiros já estavam sendo chamados para o embarque, percebemos que uma das organizadoras não havia comparecido: Kirstin Wenk, 37 anos, experimentada redatora do jornal “Die Welt” e sinóloga formada.
A outra co-organizadora da viagem, Sabine Muscat, 32, jornalista do “Financial Times Deutschland” e também fluente em chinês, quase desesperou. Depois de alguns telefonemas, ela acabou descobrindo a razão do desaparecimento: um dia antes do vôo, um funcionário da embaixada chinesa ligou para dizer que o passaporte de Kirstin havia desaparecido. O espanto foi total.
Também os vistos de jornalista exigiram aparentemente um grande esforço burocrático como convites oficiais, roteiro e hotéis. No final os passaportes foram liberados nos últimos segundos. Por milagre eles chegaram nos seus destinos. A explicação para tanta burocracia foi sucinta:
- A imprensa estrangeira é sempre vista com desconfiança pelas autoridades, que reclamam permanentemente do noticiário negativo feito sobre o país. Eles têm até listas nas embaixadas - justificou Sabine.
Depois de muitos protestos, o passaporte de Kirstin acabou sendo encontrado embaixo de uma escrivaninha da embaixada e ela pode embarcar no vôo do dia seguinte.
Com os vistos na mão, doze alemães, um brasileiro e uma francesa se apertaram durante mais de doze horas na classe econômica do vôo da Lufthansa até chegar em Pequim. Apesar do cansaço, a excitação era grande. Muitos dos passageiros que acabavam de desembarcar estavam visitando a China pela primeira vez.
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| A viagem também foi de descobrimento: nosso grupo embarca num passeio pelo vale do Shennong, no Yangtsé. |
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Metade da China em 12 dias
A esperança de ver nas ruas da capital chinesa aquelas cenas típicas de filmes, com os riquixás sendo puxados por sorridentes chineses de tranças, um mar de bicicletas ocupando as ruas ou casas de chá ou de ópio, se transformou rapidamente em decepção.
O que se vê são largas avenidas, arranha-céus, gruas gigantescas sobre os inúmeros canteiros de obras, congestionamentos e ciclistas lutando numa batalha desigual contra milhares de veículos. Trata-se de uma cidade moderna. Tão ocidental e profana, que um turista não saberia dizer se está passeando por uma versão mais espaçosa de um bairro oriental nos Estados Unidos.
Porém o que tranqüiliza é saber que, apesar do alucinante desenvolvimento econômico da China nos últimos anos, a Cidade Proibida ainda está lá, majestosa e imutável, com o celebre retrato oficial de Mao Tsé-tung pendurado num dos seus portais. E logo em frente, a Praça da Paz Celestial (Tiananmen, em mandarim), que precisa ser visitada para entender porque ela é considerada a maior praça urbana do mundo.
Talvez elas sejam os únicos monumentos que irão sobreviver ao rolo compressor do progresso nesse país, que não poupa bairros históricos, templos ou qualquer testemunho do passado. Esse é um sentimento compartilhado por chineses e estrangeiros que conhecem o país de outras viagens. O ideograma chinês para demolição, "Chai", se tornou tristemente famoso nos últimos anos e hoje é até retratado por alguns artistas nos seus trabalhos.
Mas a pergunta básica sobre a China é saber o que sobrou do comunismo? A resposta está exatamente nesse espaço central de Pequim: nos seus detalhes.
O retrato de Mao é vigiado 24 horas por dias pelos olhares rigorosos de policiais. Uma pesquisa na Internet revela que os três corajosos manifestantes que ousaram depredar esse símbolo de Estado em 23 de maio de 1989, Yu Zhijian, Yu Dongyue e Lu Decheng, foram condenados a penas de prisão entre 16 anos e a perpétua. Já a Praça da Paz Celestial é fechada à noite. Não entendemos porque e ninguém nos conseguiu explicar.
Quanto ao Grande Palácio do Povo, nosso grupo de jornalistas foi convidado para conhecê-lo e jantar numa das suas dependências. Foi uma noite que se resumiu a um festival gastronômico capaz de bater qualquer churrascaria brasileira. Lá tivemos também uma apresentação de folclore chinês - a princípio um choque para os ouvidos ocidentais (escutar áudios) – e uma coletiva de imprensa regada a vinho e aguardente de arroz.
No majestoso prédio funciona o Congresso Nacional do Povo, o parlamento chinês formado por três mil delegados que se encontram uma vez por ano apenas para aprovar as decisões do Partido Comunista Chinês. Nosso anfitrião chamava-se Wan Guoquan, 86 anos, vice-presidente da Conferência Consultiva Política do Povo Chinês (CCPPCh), um órgão de consultas de organizações políticas, sociais e personalidades chinesas. Só notamos sua importância ao perceber que todos os convidados chineses se espremiam para ter a honra de participar da foto coletiva, onde o ancião estava sentado no meio cercado por todos como se fosse a própria encarnação do Mao Tsé-tung.
Em Pequim ainda encontramos outras personalidades: Rüdiger Grube, chefe de desenvolvimento da DaimlerChrysler e responsável no grupo pela Ásia, e Liang Congjie, 70 anos, um dos primeiros ativistas ambientais da China e fundador da “Friends of Nature”.
Nesses primeiros dias já havíamos descobertos alguns aspectos interessantes da China. O primeiro é que o nome de família dos chineses vem na frente do primeiro nome. O segundo é que chá é servido em qualquer ocasião, de dia ou de noite, inclusive nos encontros formais ou coletivas de imprensa. A preferência geral é o verde. Aliás, a palavra “chá” vem do mandarim e se manteve no português. Por toda a China descobrimos várias casas de chá. Algumas variedades especiais chegam a custar fortunas nas lojas especializadas. Nem a Coca-Cola conseguiu destruir essa paixão verdadeiramente chinesa.
Em terceiro lugar é que comida é o tema preferido dos chineses. Mesmo a forma de cumprimentar alguém é influenciada por esse hábito: no lugar do nosso “tudo bem?”, muitos dizem “Ni chi fan le ma?”, que significa “você já comeu hoje?”.
O almoço ou o jantar num bom restaurante chinês pode durar horas e é constituído por um número infindável de pratos, muitos de um requinte incomum para o simples paladar ocidental. Curiosamente o arroz é sempre o último alimento a ser servido, inclusive depois da sopa. Nós nos desesperávamos. “Mas o grão não é o prato básico dos chineses?”, era a pergunta geral. Sim, mas como nossos anfitriões nos explicaram, arroz é visto como uma comida simples do dia-a-dia, que só serve para encher o estômago. Banquetes e visitas ao restaurante são considerados “férias” para o paladar.
Infelizmente nosso paladar foi meio restrito para poder deliciar-se com as iguarias de uma das cozinhas que, convenhamos, é uma das mais ricas do mundo. Lá tudo pode cair na panela: pepinos do mar, caracóis, bifes de cão ou mesmo escorpiões, cigarras, cavalos-marinhos e cobras, que também são servidos no espeto nos mercados públicos de Pequim.
Frente ao choque cultural, fomos ensinados que os diversos períodos de fome vividos pela China obrigaram a uma certa “criatividade” culinária. O que nos tranqüilizou foi perceber que esses pratos exóticos não fazem parte do cotidiano. O chinês consome praticamente galinha, peixe, carne de porco e, em menor freqüência, carne de boi. De qualquer maneira, o turista desesperado pode ir a um dos vários restaurantes de comida ocidental – expressão utilizada para definir tudo o que não é chinês – encontrados nas capitais e procurar o que lhe seja familiar.
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| A panela de fogo de Chongqing é um prato tão conhecido como o pato de Pequim e tem mais pimenta do que em qualquer acarajé baiano. |
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Faroeste chinês
Depois das experiências culinárias, nosso grupo de jornalistas seguiu para Chengdu, a capital da província chinesa de Sichuan com 10,44 milhões de habitantes.
Nessa dinâmica capital, fomos descobrir como a China desenvolve suas regiões mais pobres. Ao contrário do que ocorre no Brasil com os projetos a fundo perdido no Nordeste, os chineses realmente estão investindo em infra-estrutura, preparando o terreno para se transformar na grande potência do século XXI. A campanha tem mesmo um nome: “Go West".
De Chengdu fomos para Chongqing, o maior espaço urbano do mundo, com 31 milhões de habitantes, também uma cidade que é considerada por alguns chineses como o inferno sobra a terra – pelo clima senegalês e eterno smog – mas terra das mais belas mulheres do país. Lá visitamos favelas chinesas, e vimos como elas são destruídas da noite para o dia para dar lugar a novos empreendimentos imobiliários. Conversamos com urbanistas, arquitetos e moradores, visitamos cidades-fantasmas onde a polícia proíbe o contato de operários com jornalistas e descobrimos finalmente como o governo reassenta pessoas quando tem necessidade de espaço para projetos industriais: com a força da lei. A terra pertence ao Estado, que dá o direito de uso por no máximo 70 anos, podendo também retirar quando quiser. Essa é a prova de que o comunismo ainda existe na China.
De Chongqing embarcamos no navio “Chang Jiang Zhi Xing", que leva turistas para admirar um dos maiores espetáculos da natureza: o rio Yangtsé e seus profundos vales.
Porém o final do percurso ofereceu um espetáculo ainda mais grandioso: a hidrelétrica de Três Gargantas. Nosso navio atravessou a primeira eclusa dessa obra faraônica e vimos como dezenas de embarcações se transformam em barquinhos de papel dentro do seu gigantesco sistema de transposição.
Mas os fãs de Itaipu podem se tranqüilizar: apesar das 26 turbinas de 700 MW que funcionarão na hidrelétrica chinesa (18 em Itaipu) e cerca de dois milhões de pessoas que serão reassentadas (em Itaipu foram 40 mil), a hidrelétrica brasileira continua batendo os chineses na produção de energia: Itaipu com 93,4 bilhões de kWh/ano e Três Gargantas com 84 bilhões de kWh/ano.
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| Sabine Muscat (Financial Times) e Kirstin Wenk (Die Welt) entregam um presente ao vice-governador da província de Sichuan, Yang Zhi Wen. |
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A viagem terminou com uma estadia de três dias em Xangai. Essa cidade, que espelha como nenhuma outra o espírito empreendedor dos chineses, será a Nova Iorque asiática. Suas torres modernas, as fachadas de néon nas avenidas comerciais, o tráfego intenso e caótico, os gigantescos canteiros de obra, tudo em Xangai respira e transpira o moderno e a esperança no futuro. Nem mesmo os apagões ou o racionamento de energia tira o otimismo dos seus habitantes. Quando a iluminação dos arranha-céus é cortada às dez da noite, os turistas abandonam as praças e os mendigos também. No dia seguinte o movimento continua tão intenso como antes.
A bateria de encontros marcados nessa cidade nos levou para uma das mais modernas usinas térmicas do mundo, construída com tecnologia da alemã Siemens e dirigida por chineses, passando pelo gigantesco canteiro de obras da Linlang New City, uma cidade planejada no estilo Brasília ou Camberra. Ela foi desenhada por arquitetos chineses e europeus para abrigar até 800 mil habitantes.
Depois de almoços com banqueiros e empresários, ainda encontramos tempo para fazer compras em Xangai. Uns colegas preferiram comprar jogos de chá, outros levaram para casa relógios da marca Rolex, que seguramente não foram montados nas oficinas suíças. Um dos seus proprietários descobriu logo após adquirir a peça que o marcador de data ia até o dia “32”. Curioso é que, apesar das promessas da China de combater a pirataria ao entrar na OMC, os vendedores abordam turistas até na frente da prefeitura de Xangai.
Ao retornar à Suíça, depois de acumular horas de pesquisas, entrevistas, fotos e anotações, decidi registrar aqui nessas página minhas impressões. Minha primeira motivação foi ter descoberto durante a viagem que a China atual parece o Brasil na época do “milagre econômico”.
Muitos elementos são comuns: os grandes investimentos em infra-estrutura, o clima de otimismo, a velocidade das mudanças, o crescimento alucinante das cidades, o esvaziamento do campo e as enormes diferenças sociais criadas durante esse processo. Porém se velocidade parece ser igual, a diferença está na direção tomada.
O nosso “milagre” ocorreu numa fase curta, entre 1968 e 1973, e morreu com a crise do petróleo. Na época, o ex-ministro Delfim Netto vendia seu programa econômico com a famosa frase do "é preciso primeiro fazer crescer o bolo, para depois dividi-lo". Porém ele mesmo admite que se esqueceram de distribuir o doce no final da festa.
Nos encontros com estudantes e jovens profissionais na China, percebi também outra diferença: a educação. O regime militar brasileiro pouco se esforçou para criar universidades de ponta. Ao contrário da China, o Brasil também não enviou legiões de estudantes de engenharia para o exterior, na esperança que eles retornassem trazendo seus conhecimentos na bagagem e fundassem empresas. Também o investimento em tecnologias de ponta foi pífio e se chamava na época de “reserva de mercado”.
As multinacionais vieram, mas nunca foram obrigadas a dividir seu conhecimentos. Quase nenhuma delas abriu centros de pesquisa no Brasil. Já na China, 400 das 500 grandes empresas do mundo instalaram seus centros de desenvolvimento por lá. Exemplos não faltam: Microsoft, Hewlett-Packard, Motorola, Nokia, IBM e DaimlerChrysler. Só a alemã Siemens emprega 800 cientistas chineses em pesquisas na área de telefonia móvel, no maior centro fora da Alemanha.
Finalmente os governos militares e civis nunca tiveram uma visão a longo prazo do Brasil. Os planejamento nunca ultrapassou o horizonte dos interesses pessoais. Nesse sentido, invejo os planos qüinqüenais chineses. A diferença: eles ultrapassam suas expectativas.
Obviamente a China tem a vantagem da sua grande população. Outra razão seria a falta de religião – apagada da alma chinesa por Mao Tsé-tung – e de democracia, como argumentou um executivo alemão entrevistado por nós em Xangai.
- A Índia também é populosa, mas a democracia e a religião fazem desse país um caos só – disse sem pudor.
De qualquer maneira, não é possível negar que os chineses já têm um passado de sofrimento, que sempre foi superado por um estoicismo marcante. A colonização no passado, guerras civis, fomes bíblicas, catástrofes naturais, os planos de Mao Tsé-tung, que entrou para a história como o maior assassino em massa do século XX - 70 milhões segundo os cálculos atuais - e mais recentemente, a crise da Ásia, vieram e não conseguiram abalar a unidade desse país único. Agora ele parece só conhecer um só caminho: o topo.
Se a China seguir os passos da Coréia do Sul, que começou como um dos países mais pobres do mundo, desprezou a democracia, fechou seus mercados e, ao investir em tecnologia e educação, se transformou num dos tigres asiáticos, ela estará no caminho certo. As dimensões colossais da China são a diferença.
No Brasil dos anos 70, o antigo presidente brasileiro Emílio Garrastazu Médici costumava dizer que “a economia vai bem, mas o povo vai mal”, porém os militares acreditavam que estavam colocando o país nos trilhos do progresso. Na China, seus líderes também já admitem algumas duras verdades, mas a diferença está na longevidade do seu projeto de futuro: assim como a Muralha da China, este foi planejado para durar gerações.
Alexander Thoele, Pequim
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