![]() ![]() ![]() ![]() ![]() ![]() ![]() |
|
admin | 3:27 pm | novembro 30, 2009 | Cotidiano, Economia

Brasileiro sofre da síndrome do João-de-barro. O simpático passarinho é um dos melhores construtores de ninhos no reino animal. Além disso, não tem o comportamento egoísta do Cuco, mais favorável ao sistema de usucapião de ninhos, sem sequer precisar ter vivido neles.
Digo isso, pois sou brasileiro e sonho também em ter casa própria. O problema é que vivo em Berna, capital da Suíça, mais um dos centros urbanos com um grande déficit de moradias e um mercado imobiliário mais aquecido do que a atmosfera de Júpiter. Afinal, a população não para de crescer. Ela se espreme na única área livre entre os dois terços que são ocupados por montanhas.
Para fazer a experiência de potencial comprador, vasculhei a internet à procura de anúncios e encontrei um pequeno apartamento de dois quartos, sala, banheiro, cozinha, varandinha e um pequeno jardim. No total, não mais do que 70 metros quadrados. Preço: 280 mil francos (pouco mais de 480 mil reais). Quando cheguei por lá, já havia duas dezenas de interessados. Alguns deles tinham até metros para medir. Outros analisavam acuradamente o aquecedor do prédio.
O primeiro choque foi o estado lastimável do apartamento. Depois de servir de moradia para uma idosa por quarenta anos, tudo está por fazer: encanamento (enferrujado), janelas (deixam o frio passar), rede elétrica (pode estourar a qualquer momento) e o carpete, cheirando como um ovo cozido esquecido no micro-ondas por sete meses. O segundo foi o preço: o que estava no anúncio é apenas uma base de negociação. "Na verdade o senhor tem de botar muito mais francos na oferta para convencer o vendedor", explicou a mulher da imobiliária, completando que uma média de 300 mil francos ou mais já seria mais convincente.
Calculando mais 100 mil francos (170 mil reais) de custo para renovação, pensei também no outro obstáculo típico na Suíça: os bancos só dão financiamento se o comprador conseguir colocar 20% do valor total em dinheiro vivo na mesa de negociação.
Escutei todas as explicações em silêncio, vendo meu sonho voar longe como colibri espantado. Nesse momento olhei alguns detalhes que me haviam passado despercebido no local: os móveis da velhinha ainda estavam lá, assim como a sua coleção de cactos. Porém eles estavam jogados na caixinha de jornais como lixo. Pensei na coitada, sendo agarrada à força pelos netos e jogada em um asilo qualquer. Com certeza eles estão lambendo os beiços ao pensar no dinheiro que entrará nas suas poupanças.
admin | 7:30 pm | novembro 29, 2009 | Política, Suíça

Um resultado surpreendente para o referendo de hoje. Apesar das pesquisas de opinião terem antecipado várias vezes a derrota da iniciativa de proibir a construção de novos minaretes na Suíça (quatro já existem e não serão demolidas), o eleitor mudou a direção e marcou "sim" na cédula. Foi uma maioria larga: 57,5% dos votos. Agora o mundo inteiro está falando do país dos Alpes.
Em entrevista ao jornal Tagesanzeiger, Farhad Afshar, lamenta a decisão, mas se mostra conformado. "Foi um plebiscito democrático e por isso iremos aceitá-lo. Em todo caso, a adoção da iniciativa antiminarete fere os direitos básicos da Constituição helvética e contradiz a tradição da proteção de minorias. O resultado não está à altura da tradição e história da Suíça, pois coloca uma minoria sob pressão e cria leis de exceção."
Para o chefe da Coordenação das Organizações Islâmicas da Suíça, a mudança de opinião dos suíços nos últimos meses deveu-se ao sucesso da campanha do grupo antiminarete. "Eles conseguiram trazer para a Suíça o medo que existe no exterior do Islã", analisa, mas ressaltando os prejuízos. "Outros países na Europa estariam felizes se tivessem uma comunidade muçulmana como a nossa. Aqui somos bem integrados, sobretudo em comparação com a França e a Alemanha."
Mídias como o portal alemão "Spiegel" já prevêem possíveis danos para a imagem externa Suíça, sobretudo para a economia, extremamente orientada à exportação. "Há pouco tempo ela conseguiu resolver a disputa fiscal com os EUA, mas ainda está aberto o conflito com a Líbia, onde estão detidos dois cidadãos suíços", ressaltou. Já a Al Jazeera afirma ser o resultado do plebiscito "um choque para os muçulmanos da Suíça". O blogueiro do Times Online já se mostrava pasmo antes do plebiscito. "É um desses paradoxos suíços que um dos países mais associados com a tolerância, democracia e consenso, deva servir de palco para um referendo provocativo como este".
Como bom jornalista, saí hoje por Berna para "sentir" o ambiente do plebiscito nas ruas. Elas estavam vazias. Até as moscas estavam descansando. Com o frio, a maior parte da população estava em casa e só poucos iam aos postos eleitores, já que a grande maioria tinha enviado seu voto com dias de antecedência pelo correio. Então o primeiro lugar a visitar era a pequena mesquita na frente da minha casa.
As cortinas estavam fechadas. O lugar sem fiéis. Pensei com meus botões: essa casa, onde se misturam suíços e estrangeiros residentes nos andares de cima, uma pequena pedreira especializada na produção de lápides nos fundos do prédio e a mesquita no térreo é o retrato da Suíça, ou seja, cada um na sua. Os muçulmanos do Sri Lanka que a freqüentam nunca pediram para ter um minarete.
Agora o grande desafio será para os legisladores helvéticos integrarem à Constituição um ou vários parágrafos para proibir a construção futura dessas torres islâmicas. Como defini-las? Uma chaminé estilizada serviria de minarete? E os tratados internacionais, terão de ser renegociados? A situação será difícil até para um gênio em direito internacional. E agora José?
P.S.: Para que os leitores entendam a sensibilidade da questão, lembro que na noite de 16 de novembro, desconhecidos atiraram pedras na mesquita de Genebra. A nota pode ser lida AQUI.
admin | 5:01 pm | novembro 27, 2009 | Política, Suíça

A mesquita de Genebra é a maior da Suíça. Ela foi inaugurada em 1978 pessoalmente pelo rei Fahd, da Arábia Saudita. Seu minarete tem quarenta metros de altura e, segundo o zelador em entrevista ao jornal alemão Die Zeit, "serve para mostrar aos crentes o caminho à mesquita".
Ele e os outros muçulmanos residentes na Suíça estão aguardando ansiosos os resultados do plebiscito popular marcado para ocorrer no próximo domingo, 29 de novembro. Os eleitores votarão se aceitam o não a proibição da construção de minaretes. Se disserem "sim", essa regra será incluída na constituição helvética.
A proposta foi lançada por uma coalizão de evangélicos e políticos da direita. O maior partido da Suíça, a conservadora União Democrática do Centro (UDC), apoia a iniciativa. Nos últimos cinquenta anos, mais ou menos quando começaram chegar os primeiros migrantes não cristãos ao país, foram construídas apenas quatro minaretes no país. Porém a população muçulmana pulou de 16 mil em 1970 para 400 mil hoje em dia.
Para o jornalista alemão, o plebiscito – algo inédito em toda a Europa sobre essa questão - é uma votação sobre o Islã. O medo do terrorismo está aceso no continente. Também há o receio de que o número crescente de imigrantes termine sendo um cavalo de batalha para introduzir a Charia, a lei canônica do Islã, baseada no Alcorão. Porém o temor também é dos muçulmanos. "Primeiro são os minaretes, depois as mesquitas e então nós", analisa Ulysse Moh, o zelador.

O tema está esquentando. Jornalistas de países árabes cobrem com atenção essa manifestação política em um país, até então, quase desconhecido para eles. Outros grupos se movimentam para combater a iniciativa, sobretudo associações judaicas e as igrejas. O cartaz na imagem acima, do grupo Liberdade Religiosa, mostra como seria um mundo sem seus símbolos religiosos. Até o Cristo Redentor no Rio de Janeiro teria de ser abolido.
Já alguns manifestantes bem humorados partem para a descaracterização dos cartazes pró-iniciativa. Um deles, em Lucerna, colocou Jesus com um mangual pontiagudo na mão.
admin | 11:01 am | novembro 26, 2009 | Cotidiano

Ontem foi Dia Internacional da Não Violência contra as Mulheres e eu acabei não escrevendo nada sobre o tema. Na Suíça, as ONGs organizam 16 dias de eventos relacionados ao tema. São protestos, exposições e várias manifestações culturais. A questão da violência atinge também sociedades ricas como a helvética. Segundo um estudo de 2003, duas entre cinco mulheres suíças já sofreram pelo menos uma vez na sua vida adulta ataques corporais ou sexuais.
Para mostrar também outro lado do problema, vou falar aqui de uma novidade helvética, prevista para ser lançada em 10 de dezembro: uma casa para abrigar homens que sofrem violência doméstica. Sim, pasmem caros leitores, esse problema existe também. O lema dos seus criadores é "Violência não é masculina, mas sim humano".
A casa no cantão da Argóvia (norte da Suíça) terá uma cozinha, sala e cinco quartos de dormir. Ela deve abrigar homens, em grande parte vivendo em períodos de muito potencial de conflito (e violência) durante divórcios e separações, e seus filhos. Além disso, oferece também aconselhamento especializado através de psicólogos.
O blog da Mamãe, um dos espaços mais populares na imprensa helvética, entrevistou seu criador (clique AQUI para ler o texto em alemão). Oliver Hunziker ressalta o problema dos homens serem normalmente vistos na sociedade como culpados pela violência. Questionado sobre o perigo de sequestro infantil, o homem – ele próprio vítima de uma separação conflituosa da mulher – responde que a bola está agora nos tribunais. Ao perceber que o problema está nas mãos de uma pessoa da família, mesmo sendo ela a mãe, os juízes permitiriam a criança abandonar o lar para ser abrigada na casa.
A história é curiosa por mostrar a outra face do mesmo problema. Como pai de duas crianças, tenho observado bastante nos parques infantis que a violência sai até dos punhos das meninas. Muitos pais até fecham os olhos e parabenizam seus pupilos no esquema "ela-sabe-bem-se-defender". Obviamente os homens têm mais adrenalina e vivem em uma cultura ocidental, onde sexo e a brutalidade são cultuados até nos desenhos infantis.
Por isso só posso pensar em sábias palavras: "Eu e você: somos um só. Eu não posso te ferir sem me ferir ao mesmo tempo", já dizia Mahatma Gandhi.
P.S: a mulher da foto acima não é daquelas que batem nos seus maridos, mas sim a boxeadora argentina Jessica Cabrera. O La Nacion publicou uma boa reportagem sobre ela.
admin | 1:51 pm | novembro 25, 2009 | Cotidiano

Aiiii…o meu braço está doendo. Ontem fui tomar a vacina Pandemrix contra a gripe suína no posto de saúde do meu seguro. Esperava encontrar o consultório cheio de pessoas em pânico, com máscaras cobrindo o rosto e dando saltos a cada espirro na sala, mas foi exatamente o contrário. Só havia outro paciente e uma das enfermeiras teve até tempo de sacar a foto acima. Não precisei pagar nada.
Confesso estar um pouco amedrontado. Li hoje que o fabricante da vacina, a multinacional GlaxoSmithKline, retomou uma carga dos seus produtos no Canadá. Razão: os efeitos colaterais podem se apresentar na forma de fortes alergias, capazes de colocar a vida da pessoa em risco. Na Suíça, as autoridades tranquilizam a população. Dizem que as vacinas no Canadá foram produzidas lá mesmo e, portanto, diferentes das utilizadas aqui.
Ao mesmo tempo recebi um desses e-mails de teoria da conspiração com um vídeo do You Tube (clique AQUI para assistir). Nele, uma médica revela ser a pandemia apenas uma campanha de propaganda de grandes potências e as vacinas, um instrumento para inocular o vírus na população e diminuí-la fortemente. Não sei se essa estratégia, bolada aparentemente pelo nebuloso ex-ministro americano Henry Kissinger, também inclui os países do 1° Mundo como a Suíça. Problemas demográficos é o que não temos.
Meu conforto foi descobrir que mais de um terço dos parlamentares suíços, reunidos durante essas semanas em sessão no Congresso helvético, tomaram a vacina ontem. O exército esteve lá com seus enfermeiros e médicos para aplicar as doses. Será que eles receberam um placebo?
O fato real é que estou um pouco mais tranquilo. As vacinas foram desenvolvidas na última hora e não foram testadas como deveriam. Porém todos os governos na Europa recomendam a sua utilização, sobretudo para pessoas dos chamados grupos de risco. Depois das três últimas fortes gripes, sempre no inverno, tenho agora um grande respeito pelo vírus. Afinal, a Peste Negra não foi desencadeada aqui no continente?

admin | 5:21 pm | novembro 24, 2009 | Economia

Há poucos dias encontrei um casal de amigos brasileiros, imigrados há sete ou oito anos para a Suíça. Os dois vêm do sul e estavam cansados dos baixos salários, da violência e outras incertezas do nosso patropi. Como a mulher tem um passaporte europeu e fala o alemão, a família pode se instalar legalmente.
Estou citando o caso, pois achei muito interessante ver como eles se integraram na Suíça. O rapaz tinha apenas um diploma de uma escola técnica em mecânica e não falava alemão. Ele encontrou um emprego em uma carpintaria e conseguiu, em poucos meses, aprender não apenas o dialeto local, mas também a profissão de carpinteiro. Boa escolha, pois essa profissão é muito valorizada, já que as casas helvéticas costumam utilizar muita madeira (móveis, esquadarias, telhados e outros).
A moça era enfermeira no Brasil. Baixos salários e carga de trabalho de mula eram o seu cotidiano. Na Suíça, a situação mudou. O diploma não foi reconhecido, mas encontrou facilmente emprego na área. Enfermeiros são procurados como pepitas em Serra Pelada. Hoje ganha mais e também frequenta cursos para obter uma equivalência com os certificados suíços, o que deve melhorar o seu nível salarial.
A família tem hoje em dia um nível de vida comparado ao da classe média alta. Eles dispõem de um apartamento espaçoso, televisão plana, sistema de som, carro na garagem e, um detalhe importante, escola gratuita e um bom plano de saúde. As crianças brincam na rua do vilarejo. O transporte para o trabalho é feito de trem, com vagões de última geração. Apesar de o inverno oferecer neve nas montanhas, a família decidiu passar as férias no Brasil, aliás, nas praias do Nordeste.
As pessoas acima morrem de saudades da terrinha natal. Até escutam pagode nos finais de semana e assinam a TV Globo por satélite. Mas se questionadas sobre o retorno, são categóricas em dizer "não". Nos prós e contras, a balança pende fortemente para o país dos Alpes, sobretudo no momento de lembrar-se do contracheque e do último assalto.
Esse é um caso atípico. Também conheço outros brasileiros na Suíça que não tiveram tanta sorte. Formados em boas universidades e acostumados com alguns confortos da classe média como as secretárias do "lar", eles chegam no 1° mundo e são logo desqualificados. Os diplomas não são reconhecidos. O baixo domínio dos idiomas nacionais já dão o segundo K.O no currículo. No final, o engenheiro, administrador ou arquiteto descobrem que só servem para empacotar compras nos supermercados. Rapidamente essas pessoas se veem, mesmo com visto de residência na Suíça, se acotovelando com outros desempregados nos serviços sociais da sua cidade.
A única saída para os acadêmicos brasileiros é se converter. Se não conseguirem o reconhecimento dos seus diplomas, é preciso fazer outros cursos, de preferências em áreas de grande demanda. Uma delas é a de enfermeiro geriátrico (em breve a Europa será um continente de velhos). Outra é a de mediador intercultural (com tantos migrantes e conflitos sociais pré-programados, uma boa pedida).
A valorização dos ofícios na Suíça, algo que existe também em outros países do norte da Europa, é algo que me fascina. O rapaz da foto acima é um típico "Zimmermann" alemão, um carpinteiro. Sua formação básica é de três anos e ocorre paralelamente na escola e na empresa. Depois ele pode ainda obter o título de mestre após alguns anos de estudo, o que permite formar outros carpinteiros e até fundar sua própria empresa. Muitos concluem a formação básica e saem pelo mundo em peregrinação por até alguns anos. O objetivo é aprender novas formas de trabalhar. Nessas viagens, a maioria só carrega a roupa do corpo e os instrumentos de trabalho.
Quando voltam à sua terra, começam a trabalhar. Se forem competentes, em pouco tempo ganham mais do que médicos e engenheiros. Descobri isso no dia que chamei um bombeiro para consertar o cano furado. Ao olhar a conta, quase tive um ataque cardíaco. O rapaz provou ter humor ao dizer que não era tão caro assim. "Você quer saber quanto custa um pintor de paredes na Suíça?"
2010 Alexander Thoele - Switzerland