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Refugiados batendo na porta da Europa0 Comments

admin | 4:03 pm | junho 30, 2009 | Suíça

 

"Venho da Guiné e estou pela primeira vez aqui no país", diz o solicitante de asilo Marcel às autoridades de imigração da Suíça. Depois de uma análise acurada nos computadores, eles descobrem que o africano estava mentindo e já havia pedido asilo com outras identidades.

Mentor é originário do Kosovo, a ex-província sérvia, e já viveu vários anos na Alemanha. Depois de cometer alguns crimes, foi expulso do país. Então tentou a sorte na Suíça. Já é a terceira vez que está pedindo asilo político.

Francine vem da Costa do Marfim. Depois de ter matado – como alega, por "desespero" – um rebelde no seu país, acha que sua vida está em perigo por lá. Por isso atravessou um oceano para chegar à Suíça e pedir asilo político.

Os três depoimentos foram dados em uma grande e polêmica reportagem transmitida há pouco tempo pela televisão suíça e que me deixou muito impressionado. Ela mostra o Centro de Recepção e Asilo de Kreuzlingen, um dos quatro centros de asilados do país. Lá vivem 270 pessoas originárias de 70 diferentes países em um espaço reduzido. Sua esperança diária: ter o pedido reconhecido e poder viver na Suíça. Porém muitos deles são, de fato, refugiados econômicos.

Infelizmente o idioma é o alemão, mas vale a pena o leitor clicar no vídeo para ter algumas impressões do que é um centro de asilados. Os comentários feitos pelos espectadores mostram também como é polêmico o tema em uma Europa, cujos muros estão cada vez mais altos para quem vem de fora.

Segundo estatísticas do governo, 4.938 estrangeiros haviam solicitado asilo político na Suíça no primeiro trimestre de 2009. O número representa um crescimento de 77% em comparação com o mesmo período no ano passado. A grande maioria vem da Eritréia, Sri Lanka, Nigéria, Iraque, Kosovo e Sérvia.

Ao mesmo tempo, as estatísticas falam que 1.344 pessoas foram expulsas do país. Um terço delas saiu livremente. O resto teve de ser acompanhada até o aeroporto ou mesmo ladeado de policiais na cadeira do avião, até o país de origem.

Foto: café-da-manhã no centro em Kreuzlingen (SF1)


Charles Aznavour vira embaixador da Armênia0 Comments

admin | 4:47 pm | junho 29, 2009 | Cultura

 

Não sei se o leitor compartilha da mesma opinião, mas já não agüento mais ler sobre o Michael Jackson. Eu sei que americano foi importante para a música, mas só consigo me lembrar do seu rosto de zumbi com batom vermelho ou do macaco "Bubbles", que chegou a lhe dar umas mordidas na cama. Mas agora até os negros já estão o chamando de "irmão". E no rádio escuto pela enésima vez "Billie Jean"…

Prefiro falar de outras estrelas. Que tal Charles Aznavour? O rei dos cantores românticos franceses ainda está vivo, continua cantando como um rouxinol e também é politicamente correto. Hoje, por exemplo, ele recebeu do presidente da Confederação Helvética, Hans-Rudolf Merz, e da ministra das Relações Exteriores, Micheline Calmy-Rey, seu credenciamento como embaixador da Armênia, o país de origem dos seus pais, na Suíça.

Aos 85 anos, Aznavour não esconde de ninguém suas verdadeiras origens. "Minhas raízes estão na Armênia. A França é a minha pátria", costuma dizer. Há dez anos vive na Suíça. Nada mais conveniente do que representar na corte diplomática helvética o pequeno país ao leste da Turquia.

Para quem não sabe, o cantor sempre se interessou pela política. Quando jovem, se identificava com o comunismo. Depois do terremoto que quase destruiu a Armênia em 1988, ele criou a fundação "Aznavour para a Armênia" e chegou mesmo a gravar uma canção – “Para você Armênia” (1989) – com mais de oitenta artistas. Tanta paixão foi premiada com o título de "Herói nacional" e uma praça com seu nome no centro de Erevan, a capital armênia.

Sua predestinação como diplomata talvez possa ser confirmada pelas roupas. Aznavour já ganhou um "Prêmio de Elegância" como homem melhor vestido na categoria pop. Se quiser convencer no futuro outros governos a firmar acordos, acho que ele só precisa cantar o clássico "Que c’est triste Venise" (ver o vídeo abaixo). Até as pedras chorariam…

Foto: Charles Aznavour em Montreal, abril de 2009 (fotógrafo: Chantal Poirier)

 


Michael Jackson na reunião de pauta0 Comments

admin | 4:27 pm | junho 27, 2009 | Cultura

 

Ontem eu (dir.) e meu colega de trabalho, Geraldo Hoffmann (centro), fomos visitar Stefan Eiselin (esq.) em Zurique. Ele é um dos poucos suíços que conheço, cuja paixão por São Paulo é tão grande, que passa uma vez por ano suas férias por lá. “É a cidade onde encontro mais facilmente pessoas para bater um papo de profundidade”, contou.

Stefan é um dos chefes da redação-online do Tagesanzeiger, um dos mais conceituados jornais do país. Com apenas 30 jornalistas, essa plataforma se transformou em uma referência para mim do melhor que pode ser feito no jornalismo eletrônico hoje em dia.

O segredo deles não é apenas a rapidez como os temas da atualidade são entram em linha, mas também impressionante criatividade no uso de imagens e outros elementos multimídia. Além disso, os textos costumam ser inteligentes, soltos e até irônicos, lembrando um pouco o Pasquim nos seus melhores anos. Confesso aqui que muitas das reportagens publicadas por eles, me inspiram diariamente no meu trabalho.

Passamos uma manhã na redação. O mais interessante foi ver como os editores discutiam na reunião de pauta o tema da morte do cantor americano. Além da noticia bruta, o Tagesanzeiger.ch publicou também artigos divertidíssimos: “O que não pode se deixar de ter da obra de Michael Jackson“, “Estátua gigante de Michael Jackson espera comprador na Suíça“, “Como Michael Jackson mudou o mundo da música“, “Os momentos mais estranhos da sua vida“ e uma grande quantidade de vídeos e imagens para o leitor se esbaldar.

A mais interessante descoberta foram os grandes monitores espalhados pela redação do Tagesanzeiger.ch. Como na bolsa de valores, eles apresentam dezenas de gráficos, números e outras informações da monitoração em tempo real da visita dos leitores. Assim os jornalistas reagem imediatamente, priorizando os temas mais procurados e modificando a página de abertura. Coisa de primeiro mundo!

Na manhã o tema mais quente era, obviamente, a morte de Michael Jackson. Só nos Estados Unidos, os 30 mais importantes sites informativos ficaram fora do ar por bastante tempo ou estavam super-lentos. O Twitter não dava conta de enviar tantas mensagens. A Wikipédia quase morreu: durante a noite o verbete do cantor americano foi modificado mais de 500 vezes. Até o Google chegou a achar que o interesse poderia ser um ataque coordenado de hackers. Na redação em Zurique, um gráfico do monitor mostrava que as reportagens sobre o Michael Jackson estavam sendo literalmente devoradas pelos leitores. Um verdadeiro “Thriller”!!!!


Brazucas se disfarçam de português para ficar na Suíça0 Comments

admin | 6:48 pm | junho 26, 2009 | Suíça

Agora a turma vai ficar chateada. Mais uma vez o exilado “voluntário” está falando mal do seu país. Mas é verdade: alguns dos nossos conterrâneos estão comprando passaportes portugueses falsos para obter vistos de residência na Suíça. Só no cantão de Zurique, foram 26 brazucas em 2008.

A notícia foi publicada em um jornal dominical. Para minha vergonha os editores ainda colocaram na matéria uma foto exibindo dois vendedores de feira popular com camisetas verde-amarelas e um terrível “Brazil” estampado em letras garrafais no peito. Como as informações estavam meio falhas, decidi pesquisar e terminei escrevendo uma grande reportagem (clique AQUI para lê-la) Para meu alívio: o campeão dos documentos falso é a Itália!

Só para adiantar, explico por que o golpe se tornou tão popular. Um passaporte da União Européia permite a pessoa se estabelecer na Suíça sob certas condições. Como falamos também o idioma de Camões, qualquer brasileiro pode passar sem problemas por português. E para facilitar ainda mais: o passaporte biométrico de Portugal só começou a ser emitido em agosto de 2006 e muitas das prefeituras suíças ainda não dispõem de recursos técnicos para identificar as falsificações de forma acurada.

Agora cuidado: não adianta o malandro chegar de tamancos, bigode e falando em voz alta “tás a ver, o gajo aqui não gosta de bicha (fila)” para conseguir o visto. O truque já está ficando batido.


A polêmica do suicídio acompanhado0 Comments

admin | 4:51 pm | junho 25, 2009 | Vídeos

 

O jornal inglês "The Guardian" mexeu em um ninho de marimbondos ao publicar, no último domingo, uma reportagem sobre a Dignitas, uma polêmica associação de ajuda ao suicídio com sede em Zurique.

Uma lista enumerava 22 doenças sofridas pelos 114 cidadãos britânicos, que escolheram desde 2002 o país dos Alpes para terminar os seus dias voluntariamente – afinal, o suicídio assistido é proibido na Grã-Bretanha. A análise acurada do quadro mostrava que 36 pessoas tinham câncer de várias formas e 17 esclerose múltipla.

Porém um grande número delas não sofria de doenças que levam automaticamente à morte. Exemplo: dois tetraplégicos ou três suicidas com doenças renais, dos quais o tratamento poderia ter sido feito através de diálise ou transplantes. Eles também tomaram com o canudinho um coquetel de substâncias químicas e partiram dessa para melhor.

Dois dos ingleses mortos sofriam do mal de Crohn, uma doença crônica inflamatória intestinal, e um de artrite reumatóide, duas enfermidades que podem ser extremamente incômodas, mas são tratáveis, como explicou Tony Calland, presidente do Comitê de Ética da Sociedade Médica Britânica ao "The Guardian".

As estatísticas provocaram uma grande polêmica na Grã-Bretanha sobre a ajuda ao suicídio (leia o artigo Mitos e realidades sobre o suicídio assistido na Suíça). Muitos defendem agora a sua legalização no país.

As duas organizações atuantes na Suíça, a Dignitas e a Exit, são muito criticadas por todos os setores da sociedade. O problema é tão complexo que até hoje o governo helvético não conseguiu chegar a uma conclusão legal sobre a questão (o debate pode ser até acompanhado na internet).

O vídeo acima mostra a triste história do inglês Craig Ewert, 59 anos. Ele sofria de uma doença incurável de nervos e utilizou os serviços da Dignitas para terminar a sua vida. O repórter o acompanhou e a sua esposa até os últimos momentos. Emocionante!

Nota: ontem alguns leitores baixaram o malho em cima de mim pela menção aos funcionários públicos. Por vir de uma família de servidores do Estado, tenho todo o respeito por eles. Só quis contar a decisão radical da Suíça de reservar a estabilidade a um grupo mínimo de pessoas, como os magistrados. Se isso é melhor ou não, deixo ao leitor o julgamento.


Quero um Senado como o da Suíça!!!1 Comment

admin | 4:00 pm | junho 24, 2009 | Política

Distante mais de 10 mil quilômetros do Brasil, acompanho deprimido o escândalo no Senado. Leio no O Globo que o presidente da Casa, José Sarney, encontrou formas criativas de incluir parentes e amigos no seu quadro de funcionários. Só não entendo porque o político maranhense não emprega essas pessoas no Sistema Mirante de Comunicação, empresa familiar, pagando o dobro do salário.

Não me surpreendo! Ele, como escritor, precisa ter imaginação para autorizar os atos secretos. Seguramente é o mesmo talento que usou para criar planos econômicos mirabolantes e deixar de legado a moratória e uma inflação de 84,32% ao mês no final do seu mandato. Infelizmente o eleitor não tem memória e nem lê os livros de Sarney.

A tristeza me fez pensar na Suíça, onde vivo meu exílio voluntário. Como funciona o Parlamento? Ser deputado ou senador no país dos Alpes é como ganhar na loteria? Pesquisei diretamente na fonte.

No Parlamento suíço trabalham 295 pessoas. Nenhum deles é funcionário público. Desde uma revisão legal em 2000, a figura do funcionário público, indemissível, não existe mais na Suíça. Os “colaboradores” do serviço público são simples empregados como no comércio. Concurso público? No Parlamento suíço os funcionários são contratados através de simples anúncios publicados na internet ou nos jornais.

E o dinheiro? Por funcionar em sistema de milícia, o deputado e senador suíços não têm salários. Eles apenas recebem indenizações pelo seu trabalho (a tabela está disponível na internet). Como exemplo: a participação dos parlamentares em cada sessão é remunerada em 425 francos (774 reais). O Parlamento só tem quatro sessões de três semanas por ano. Raramente é convocada uma sessão extraordinária, como no Senado brasileiro este ano. Antes que esqueça: o presidente do Senado ou da Câmara dos Deputados na Suíça ganha um adicional de apenas 40 mil francos (79 mil reais). 

Outros privilégios dos parlamentares são um abono de trem na 1° classe. Porém, ao contrário dos colegas brasileiros, eles não têm apartamentos funcionais, funcionários de gabinete, passagens aéreas ou carros com motorista. Apenas recebem um adicional anual de 31.750 francos (57 mil reais) para custear o exercício do mandato.

Um reforço à transparência do Congresso helvético é a lei que obriga todos os parlamentares a declarar suas atividades profissionais. Tabelinhas publicadas na internet mostram claramente se um deputado ou senador tem, além do seu trabalho, outras fontes de renda como assentos em conselhos de administração de empresas. Assim é possível ver onde a pessoa está com o pé preso…

Aos leitores interessados em saber as diferenças entre o Brasil e a Suíça, recomendo a excelente entrevista feita no início de junho pelo meu colega Claudinê Gonçalves com o presidente do Senado suíço, o socialista Alain Berset. Ele não tem salário, carro oficial, funcionários ou parentes empregados. E detalhe: já viveu no Brasil, onde foi pianista de bar.

Foto: Senado suíço em Berna


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